Vida no Reino Róial
Dumb and Dumber
Mas alguém tem paciência para estas duas? Uma é uma neurótica sore loser Bill wannabe, a outra uma milfa ignorante que nem sabe o que é a Doutrina Bush. E vêem-se as duas a governar o mundo! Perderam-se. Pois chegou o momento deste diário declarar oficialmente o candidato que apoia nas próximas eleições norte-americanas. E antes do meu muy estimado público se perguntar porque raio importa-se ela com essas coisas, a gaja nem vive nos States nem nada, penso eu ter direito a expressar a minha opinião sobre quem gostaria de ver na Casa Branca, uma vez que a escolha do próximo Presidente dos Estados Unidos terá repercussões no modus operandi da sua política externa e, sabendo como sabemos que Londres apoiará Washington nas suas cruzadas pelo mundo, também terá influência na probabilidade de eu levar ou não com uma bomba na cara, qual ataques terroristas de 2005. Sendo assim, ladies and gents, dames and knights, johns and heidis, permitam-me dizer que o apoio pink deste diário nunca foi para a irmandade Clinton, como já devem ter reparado, nem irá para John McCain, uma pena, pois embora sendo um personagem simpático e moderado na sua ideologia redneck, infelizmente parece ter perdido muito do seu mojo e da sua estamina anti-establishment e receio que chegando à Casa Branca vire pau mandado da National Rifle Association, dos fundamentalistas cristãos e dos apoiantes da Palin. O meu voto super deluxe, como estava eu a dizer, vai sim para o homem do momento, Barack Obama, porque com ele posso estar descansada que as probabilidades dos Estados Unidos invadirem o Irão sem primeiro ouvirem umas verdades dos aliados europeus serão mais reduzidas, assim como serão mais reduzidas as probabilidades de eu ser incinerada por uma bomba nuclear quando o Irão retrucar o galhardete, colocando Westminster na mira dos mísseis. What can I say? The man had me in Berlin!
Mayor Boris Takes Over Olympic Flag

Depois de uma magnífica prestação nas olimpíadas de 2008, em que a Team GB enobreceu as ilhas com um total de 47 medalhas, 19 delas de ouro, dá-se início, pela terceira vez na história das olimpíadas modernas, à transladação da bandeira olímpica para Londres, onde os próximos Jogos Olímpicos terão lugar. Boris está a fervilhar de orgulho e não se deixa amedrontar pela aparente primorosa organização do Comité Chinês, prometendo antes manter os deslizes orçamentais em check e receber os atletas e os espectadores da maior competição desportiva do mundo de forma mais íntima e recatada, menos militarizada e ostensiva, portanto.
Dizem os pundits que a grande rival da London 2012, não é Beijing 2008, mas sim Sydney 2000. O que se entende bem, quando se tem em consideração a forma como estes jogos veraneios foram manchados por uma virulenta falta de liberdade de expressão e uma organização ditatorial que, entre várias gaffes circenses, trouxe abuso e destruição desnecessária à vida de muitos milhões de chineses. Aos meus olhos, o governo da China continua o mesmo. Um poço de contradições. Reclama-se parte das nações livres e civilizadas mas continua a tratar a sua gente como descartáveis fantoches, caprichosamente manipulados em nome de um falso “bem comum” sem qualquer respeito pela dignidade humana ou pela liberdade de escolha, tudo com o único objectivo de perpetuar o adiamento da resolução das suas crises internas.
Bom. Mas isso, hoje, não interessa nada, porque aqui no reino é dia de festa.

“It’s official. It’s happening. It’s our turn again.”
▒ Are You Having a Laugh?
Em 1972, de visita ao zoo de Edimburgo, um jovem tenente da Guarda Real norueguesa decidiu adoptar um dos pinguins que lá estavam, atribuindo-lhe a posição de Primeiro-Cabo. Deu-lhe o nome de Nils Olav em homenagem ao Rei Olav e ontem, às portas do zoo de Edimburgo, Nils foi feito Cavalheiro pelo Rei da Noruega por serviços prestados à Guarda Real norueguesa. Depois de uma vida de dedicação militar, em que o supremo sacrifício pela pátria se traduziu na função de mascote, levando Nils à cobiçada posição de Coronel – o pinguim vestiu-se à altura da efeméride, com um charmoso black suit, e recebeu a honra com toda a pompa e cerimónia.

“Are you having Olav?”
“Pardon? That’ll be Sir Olav to you!”
Perdoem-me o trocadilho fácil, mas não pude deixar de o transcreber da Sky News.
O humor britânico pode ser naff, mas é genial.
G-Spot

Mas chega de falar de trabalho, de reflectir sobre metamorfoses profissionais, de regorgitar auto-congratulações e de massajar o ego com masturbações verbosas e vamos falar de outras coisas igualmente interessantes e importantes na vida, como, por exemplo, os documentários G-Spot que o Channel 4 anda a transmitir este mês em horário nobre.
Estes documentários dedicam-se a explorar temas próprios das mulheres e são feitos para gente que se interessa pelo universo feminino, por mais descabido que o mesmo, por vezes, se apresente.
O último documentário, falou sobre o comércio das peles – no qual a jornalista, Merrilees Parker, teve literalmente que testemunhar as etapas do Kill It, Skin It, Wear It numa fur farm dinamarquesa e nos campos do Idaho – e o próximo falará, ladies and gentlemen, sobre a vagina perfeita.
Pois é. Segundo a jornalista, Lisa Rogers, o último grito em Inglaterra entre a irmandade é fazer uma operação cosmética à Miss Twat, dando-lhe o último designer look. Parece que não são só os homens que sofrem do complexo da foreskin, as mulheres também partilham das mesmas preocupações com a sua lábia, e nos últimos cinco anos as labiplastys aumentaram em 300 por cento.
Sinceramente, não entendo o propósito da estética da pachacha. Anda uma moqueca a sofrer com o flagelo das genital mutilations na África islâmica e estas gajas a pagarem para cortarem as suas private bits and pieces. Vá-se lá entender a cabeça das mulheres mal-quecadas. Good grief.
De qualquer forma, se estiverem no Reino Róial, o documentário é transmitido no Domingo pela Channel 4, às 22 horas. A não perder.
Dia da Indepêndencia

Hoje, é o dia de independência da Colômbia, efeméride que não me diz nada ao coração nem ao intelecto e certamente me passaria completamente ao lado se não fosse a Mercedes convidar-me para celebrarmos o dia em que o seu país emancipou-se da espanholada com um almoço colombiano de lamber os dedos.
Ao almoço juntou-se-nos também o casal canadiano superstar, o Edward e a Martha, ele colega de doutoramento, ela futura estudante de medicina em Halifax, e o casal maravilha luso-francês, preferido dos preferidos, o Nico e a Mathilde, grandes amigos do peito, da fofoca, dos copos e do bem-dizer da pátria ibérica, ela colega de doutoramento, ele consultor numa qualquer empresa londrina.
A matinée, como se poderia esperar, foi muito cótural e entretida com interessantes debates sobre a história e a política contemporânea colombiana, mas o ponto alto, devo de dizer, não foram os sons andinos que ecoavam dos speakers, nem a deliciosa home meal cozinhada pela superdotada Mercedes com a ajuda da sua simpática flatmate, a argentina Evita. A bom do registo para a posteridade, convém deixar aqui escrito que um verdadeiro banquete de milho cozido, sancocho de pescado, arroz de coco, arroz de feijão, plátano, ceviche e doce de leite com queijo fresco foi servido, como diz a Mommy, com muito amor. Não. Como estava a dizer, o ponto alto da festa não foi sequer a comida, foi antes ver que os casais moquecos decretaram há pouco tempo o tube, o double decker e o black cab obsoletos e decidiram juntar-se à febre do street cycling, que, por curiosidade, conta já com um milhão de donos e proprietários de bicicletas só na cidade de Londres, deslocando-se a pedais para todo o lado: para o trabalho, a faculdade, a Tesco, o ginásio, o parque, o pabe e até mesmo para a casa da Mercedes.
Os quatro convertidos contaram-me maravilhas das duas rodas, da rapidez com que se cruza a Zona 1, do dinheiro que se poupa em transportes públicos e da segurança que se sente no meio do trânsito, pois os automobilistas britânicos até são minimamente civis e respeitadores do código da estrada. Para além disso, dizem eles que ciclar faz bem ao coração e ajuda a tonificar as pernocas e os abdominais, so what are you waiting for, Maria Lua?
Perante tanta vantagem, devo de dizer que fiquei tentada a deixar os saltos em casa e fazer-me à camisola amarela até porque, depois de dar uma voltinha na bomba da Mathilde, confirmei que ainda tenho o equilíbrio necessário à ciclagem. Assim, parece que nada me está a impedir de, qual Simón Bolívar, também eu declarar o meu dia de independência do oyster card, nem que seja só ao fim-de-semana em que, for Pete’s sake, os autocarros parecem virar atracções nacionais, enchendo-se de turistas de mapa na mão e de criançado de palmo e meio que insiste em gritar a pulmões cheios. Da mesma maneira, ao fim-de-semana esta cidade parece que pára, literalmente, e hoje só para chegar a casa da Mercedes, ou seja, só para ir de Westminster a Newington Green, demorei uma hora e meia de transportes, enquanto os casais atletas, esses, não demoraram mais de 45 minutos para cobrir o dobro do percurso.
Bikes -1; Double deckers - 0
Dois Anos Depois

Nos últimos dois anos, desde que escrevi as últimas linhas do Maria Lua Ponto Com, que se me recordo bem, terminou na noite em que o Peter decidiu iniciar um escaldante affair com esta inocente, muito crédula e para sempre escarlatada moqueca, muita coisa mudou.
2006
Em Outubro de 2006, no mesmo mês em que a Coreia do Norte fez explodir um engenho nuclear nas párias montanhas do seu país, eu comecei a dar aulas como professora assistente na minha prestigiada academia, também conhecida por Londres Sempre Eterna, a licenciandos do último ano, turmas de cachopos simpáticos que durante dois anos têm-me mimado com notas acima da média e emails de agradecimento de puxarem do lencinho. No mesmo mês, também comecei um mandato de um ano, não remunerado, como chair duma Associação académica de renome internacional, cujo nome não interessa para aqui, a qual só me deu dores de cabeça, um par de úlceras nas veias, animosidades com antigas amigas de pub e a promessa de que nunca mais me apanhavam numa igual. A experiência profissional que adquiri, essa, foi o que me valeu, pois aumentou exponencialmente a cota da minha reputação académica junto do mercado das transacções intelectuais.
No mês seguinte, em Novembro de 2006, enquanto Saddam Hussein era condenado por crimes contra a humanidade, eu decidi começar a fumar - eu sei, eu sei… - por nenhuma razão especial senão aquela de que queria sentir nas minhas roupas, no meu cabelo, na minha pele, nas minhas ventas e nos meus dedos o cheiro êxtasiante do Peter. Estou certa que outras moquecas concordarão comigo quando digo que o odor mais reconfortante, doce e afrodisíaco do universo é o cheiro do homem que amamos e, por essa altura, eu andava tão perdida de luxúria pelo súbdito de Sua Majestade, o mesmo que me trazia enrolada no dedo mindinho do pé, que o seu cheiro a nicotina passou a ser o meu perfume de eleição. Que nojo, sei eu muito bem, e agora é que eu merecia mesmo ser atirada contra a parede, depois de uma confissão destas que coloca em questão todo o meu well-scented world sustentado ao peso de um pequeno resgate de um rei gasto em perfumes franceses e besuntos de duche e depois-de-duche das mesmas marcas.
Bom. Mas continuando. Por essa altura, também conheci o Juan, um espanhol de pestanas compridas e longa network de amigos e conhecidos que numa noite de copos no pub da faculdade apresentou-me a um grupo encantador de moquecos e moquecas vindos dos quatro cantos do mundo. Em pouco tempo, a trupe do Juan tornou-se também na minha gangue, no oxigénio que ainda hoje continua a revitalizar-me o humor e a auto-estima cada vez que me cruzo com eles no Departamento ou chego a uma house party e dez pares de braços se estendem para me abraçar e amassar o ego.
E assim os meses se passaram. Saddam Hussein foi enforcado e eu terminei tudo com o Peter, cansada da quickie e da sua bigamia.
2007
No início de 2007, a Bulgária e a Roménia entraram na União Europeia e também eu decidi andar com a vida para a frente, dando início ao que viria a ser um muito curto romance com o Preston, rapaz que embora nos seus tenros vintes, se mostrou frustrantemente impotente. Em menos de nada, Chirac anunciou os seus planos de reforma e o Preston foi à vida. Marinheiros britânicos foram capturados e soltos pelas autoridades iranianas e o Peter voltou à carga, sniffing around like a dog in heat, tentando-me com o seu cheiro a tabaco, as suas mãos sôfregas e o seu beijo húmido. O independentista Scottish Nationalist Party ganhou as eleições para o parlamento escocês, Gordon Brown substituiu Tony Blair em 10 Downing Street e o Peter e eu andámos enroscados como um par de teenagers, escondidos pelos cantos dos prédios como dois agentes da Gestapo exilados na Argentina.
Com a chegada do Verão, melhor dizendo, com a continuação da chuva e do frio - quem vive nesta cidade sabe tanto quanto eu que, no ano passado, o Verão chegou e foi-se embora no dia 23 de Maio - eu e a Mommy fomos visitar o padrasto irlandês a County Kerry, antes de rumarmos a Paris para mais uma expedição anual às lojas da moda da capital das luzes.
Por essa altura, Karl Rove demitiu-se da administração Bush, a Indonésia foi abalada por três fortes terramotos e eu ganhei, finalmente, à custa de muita lágrima salgada e noite mal dormida, dois dedos de testa. Depois de mais uma esfregada no Peter, decidi que outro capítulo da minha autobiografia, “Melhores Quecas de Sempre”, tinha de chegar ao fim e, sem pena minha, ser encerrado para sempre. Maria Lua voltou a reclamar o seu velho papel de estrela principal da sua própria vida, mulher depilada e muito auto-amada, sem tempo, inclinação, nem pachorra para desencalhar homens de tomatada light, mal-copulados e happy-fobiosos.
Em Outubro de 2007, no mesmo mês em que Benazir Bhutto regressou ao Paquistão, eu terminei o mandato e saí de vez da Associação, iniciei o segundo ano como professora assistente e comecei a trabalhar numa revista da especialidade, que por acaso não é a minha. Para além disso, também fui recrutada pelo Departamento para trabalhar como VLE Designer juntos dos deuses catedráticos, que em pouco tempo se encantaram com os meus talentos para o IT e o HTML e se tornaram numa muy apreciada legião de fãs. Tudo coisinhas boas, como podem imaginar.
O ano de 2007 acabou com um par de dates rançosos, a declaração do estado de emergência no Paquistão e na Geórgia e a votação do Tratado de Lisboa.
2008
Ano novo, vida nova, ou quase! Mais um par de capítulos foram escritos de fresco, acabadinho de sair do forno, que com o coração em banho maria, já estava na altura do doutoramento andar para a frente. Enquanto o Quénia afundava em conflitos étnicos, Castro demitia-se da presidência de Cuba, Dmitri Medvedev era eleito chefe supremo da Rússia e Bertie Ahern deixava de ser primeiro-ministro da Irlanda, eu esmerdei-me a escrever a minha master piece. Ainda dei um pulo à Ibéria para fazer pesquisa nos arquivos e bibliotecas da metrópole do Império e de regresso a Londres, com as ideias mais aclaradas e bem fundamentadas, a minha contribuição para o mundo das politiquices foi designada de “original” e “inovadora” por aqueles que muito sabem e tudo conhecem - ai, música para os meus neurónios, que agora é só escrever mais uns quantos capítulos e a coisa fica dada como pronta, eu emancipo-me da Never Land e faço-me ao mundo dos crescidos como gente grande, juro por deus que é só mais um ano!
Ou será que é?
Há dois meses atrás, em Maio, portanto, depois do Peter ter voltado a aparecer do nada, vindo bater às portas do real Castelo de Westminster, só para ser enviado de volta para de onde se veio a arrastar, frustrado comigo e com a minha teimosia pois os planos que tinha para a soirée deviam ser mais excitantes do que a noite que acabou por passar na rua a olhar para o alto da minha janela, fui convidada por um colega que me conhecia dos tempos da Associação a substitui-lo na Faculdade do Rei. Ou seja, fui convidada a deixar o sufixo de “assistente” para trás e, durante um ano, tomar as rédeas de um par de cadeiras leccionadas a licenciandos e mestrandos no prestigiado departamento das Ibérias. A oferta foi aceite na hora e desde então tenho estado a andar pelas nuvens, gratas mil pelas oportunidades que esta Londres me tem oferecido desde que aqui assentei malas há quatro anos. Em troca de muito trabalho, bruta dedicação e sovaco encharcado, esta minha terra do posh accent tornou-se na cidade das oportunidades, das ambições concretizados, das aspirações realizadas e dos desejos saciados. É a Londres que chamo de casa, de porto de abrigo, de colo de mãe. É o meu útero e as minhas entranhas. O cenário perfeito do meu conto de fadas. O meu pouso de eleição, onde a chuva não pára de cair de forma romântica e o céu é para sempre cinzento chouette.
Hoje, nos dias que correm, Israel e o Hamas declararam tréguas, Ingrid Bettancourt foi resgatada das mãos das FARC e eu ando por aqui, quase, quase, a largar o vício do fumo (despojos da relação com o Peter!), mas sempre a lavrar que nem uma alentejana, sem medo de sonhar grande. Com o coração nas mangas, ainda arrisco o ocasional date, mas jamais digo não a uma saída com o Juan e os moquecos para os pubs da cidade. Desde que o Chardonnay corra solto e hajam black cabs a circular, a Maria Lua poderá ser vista em qualquer parte de Londres a viver um romance perfeito com a capital de todos os seus amores.

