A Academia é o meu refúgio, o meu santuário, o meu spa, o meu Woodstock, a minha revolução silenciosa. É o sítio onde espero passar o resto dos meus dias: a trabalhar, a estudar, a investigar, a fazer sentido do mundo, a construir longas amizades com pilhas de livros e a perder-me de amores por pensadores vivos e há muito falecidos.
Na minha Academia do reino róial, Londres Sempre Eterna, encontrei o meu niche e as cores da minha pele, encarnada e branca, que me assentam nos ossos como uma bandeira. Talvez por esta Academia ser mais corporativa do que as da Ibéria, talvez por a sua credibilidade e reputação mundial ser incomparável a outras do continente, talvez por a sua tradição académica ser posto de referência para os líderes mundiais, que depois de politicarem em 10 Downing Street, dão um pulinho aos anfiteatros para discursarem para os estudantes, os “líderes de amanhã”, talvez por tudo isso e muito mais é aqui que eu me sinto no céu, no inferno, no centro do mundo.
O prestígio que o nome desta Academia me dá como doutoranda e professora assistente enche-me de orgulho, o mesmo que sinto pela cream of the crop que aqui lecciona. O conhecimento que destila por estas paredes, os académicos que aqui circulam e cujas opiniões são referenciadas em todo o mundo, inclusive na CNN e na BBC World, as palestras repletas de jovens e tímidas mentes dispostas a serem moldadas pelos mestres do pensamento, os corredores silenciosos da biblioteca cheios de livros e mais livros que quando lidos, entendidos e criticados nos engrandecem como seres racionais – tudo isto é o meu pão e a minha água. A razão de ser da minha gloriosa existência.
Dito isto, enganam-se os que pensam que Maria Lua sempre foi uma snob e pestilenta dos livros, sem modéstia para ter conversas decentes com mortais menos iluminados. Não, nunca fui. Na verdade, nunca fui uma mente particularmente brilhante, mas também nunca fui, atenção, menina de negativas – em vinte e três anos de estudo, elas contam-se orgulhosamente pelos dedos. Fui, antes, aluna consistente e dedicada ao seu trabalho e, por isso, menina de bons e satisfazes bem, embora horrores de opinada e com perguntas mil para os professores. O meu muy razoável aproveitamento nunca me envergonhou, nem a opinião que os professores tinham de mim, uns achavam-me o máximo, cheia de spunk e sassiness, outros uma respondona de primeira com atitudes de proletariado – um professor das Ibérias virado Ministro disse-me uma vez, Maria Lua, cuidado com a linguagem dentro da sala de aula, é melhor deixá-la para o café, embora tenha acabado por me graciar com um superlativo 18 no final do semestre. É assim. Às vezes, a vida tem dessas ironias. Mal sabe ele que a linguagem continua a mesma dentro da sala de aula, mas desta vez sou eu quem está à frente dos meninos, que não se queixam, muito pelo contrário, mostram-se genuinamente gratos pelo meu simplório vocabulário que lhes facilita a vida, porque, meus queridos, para complicada já basta a ranhosa da morte.
O que me distingue dos coleginhas mais inteligente de escola que não seguiram esta minha fabulosa carreira é o facto de eu estudar por genuína paixão, gozando, como se de um bom vinho se tratasse, cada gota de informação histórica e política mais interessante que cruze o meu caminho. Conhecer e compreender as causas por detrás das coisas, a génese de certos eventos sociais e políticos, são o meu objectivo número uno, mais do que alguma vez foram a boa da média final de lincenciatura, de pós-graduação ou do master’s. Com 14 anos, juntamente com a leitura assídua da Ragazza, já eu assinava a Newsweek e, desde então, tenho sido modestamente bem sucedida em desenvolver o meu intelecto e a visão que tenho do mundo. O conhecimento, ao contrário da roupa da moda, não ocupa espaço.
Mas não são só as “ideias”, as “causas” e as “razões” que me estimulam no mundo académico. Na minha Londres Sempre Eterna tenho feito de tudo um pouco para a administração da faculdade. Para mim, não só é imperativo fazer parte da faculty que educa e aviva o brio dos “líderes de amanhã,” também considero de importância máxima saber como as catedrais do conhecimento funcionam, estar a par das complexidades administrativas do ensino superior. Assim, nestes últimos quatro anos, desde os tempos do master’s, já trabalhei em revistas académicas, organizei uma conferência mundial, chefiei uma associação académica, vigiei inumeráveis exames de final de ano e de curso de verão, escravei brevemente para a Graduation Admissions Office e, finalmente, ajudei nas matrículas e nas cerimónias de graduação. Em suma, fiz de tudo um pouco em troca de uns tostões rápidos, mas acima de tudo, em troca de uma compreensão holística do que os meus alunos têm de passar antes de entrarem na minha sala de aula e depois de sairem da minha vida. O meu papel na sociedade não se limita a passar informação de uma geração para a outra, pôr os miúdos a lerem e a pensarem pelas suas próprias cabecinhas. Esse papel também abrange outras funções mais chatas e aborrecidas como amparar, educar e formar personalidades, mesmo que os meus meninos já tenham vinte e um anos de idade.
E essa é uma missão que eu levo muito a sério.
Em vista disto, e depois desta longa ode à Academia, podem imaginar como eu me senti hoje, quando vi as notas que os catedráticos da cadeira que assisto deram aos exames de final de ano dos meus meninos. Todos os meus alunos tiveram Mérito à minha cadeira, com excepção de dois que tiveram Distinção. Ninguém teve um rasco Pass. Um verdadeiro feito. Ai.
Tissue!