Me, Myself and I



Diário

Thursday, 25 September, 2008

Desde que aprendi a escrever que tenho a necessidade de rabiscar diários que relatem a minha vida e o impacto que a vida dos outros tem tido em mim. Tenho obsessão por deixar um testamento escrito do meu crescimento interior e exterior, do meu percurso, das minhas mudanças, da concretização dos meus sonhos, das minhas dores e das minhas alegrias.

Escrevo, principalmente, porque tenho medo de ser esquecida pelas futuras gerações da minha família e de que as pessoas que hoje significam tudo para mim, amanhã não passem de um nome vazio mencionado por alto à mesa da ceia do Natal, porque ninguém mais se recorda das suas biografias. Pois o tempo passa, não perdoa e tudo esquece.

Quem pode contar com exactidão a história de vida dos seus avós e bisavós, de onde vieram, o que fizeram, o que suportaram, quem amaram se as suas histórias não tiverem sido escritas por eles ou por outros? Será que as suas vidas foram tão corriqueiras e banais como aparentam terem sido? É certo e sabido que no final da vida, a memória começa a falhar-nos e o relato deles quando passado de boca em boca torna-se incompleto e cheio de buracos. Por isso, tenho medo que os meus filhos e netos não tenham como saber quem eu fui se eu não lhes deixar uma descrição in real time da minha vida. Quero que eles saibam porque tomei certas decisões, que me tornaram no que me tornei. Quero que através de mim, eles aprendam o valor que a Mommy tem na minha vida, essa guerreira dos meus sonhos, paixão da minha gloriosa existência. E espero que o meu testemunho lhes dê força, esperança e fé neles próprios como a Mommy me tem dado a mim.

Os diários que tenho escrito ao longo da minha vida têm sido muitos e variados. Desde o caderno encadeado com cheirinho a morango, oferecido pela Tia Ganga quando fiz 9 anos, passando pelos travel journals onde redigi as minhas aventuras pelo Canadá e pela Holanda, tudo tem servido de veículo para registar as minhas vivências e perspectivas do mundo. Tanto esses como os cadernos pretos da ambar (muito populares nos meus teen years), a compilação de Word Docs acumulada ao longo dos anos quando o papel e a caneta não estavam à mão, os love diaries iniciados de cada vez que um sapo in disguise me roubava o coração e os blogues, embora de uma forma mais censurada, claro está, a Maria Lua Dot Com e, agora, o Pink al Fresco, todos estão devidamente guardados para um dia passar de mão.

Mas, ultimamente, for my own chagrin, não tenho tido tempo para deixar pedaços de mim inscritos para a memória dos descendentes. O tempo é curto e, cada vez que me sento para escrever algo mais criativo e contemplativo, dá-me um peso na consciência que me deixa atordoada, porque a Maria Lua devia estar era a escrever a tese e não pensamentos cor-de-rosa, menina feia! E em guerra com a minha própria consciência, tenho de dizer, não me sobrou outra alternativa se não deixar de lado a escrita das aventuras e ideias que aqui não são partilhadas (too private!) para poupar tempo para a tese. Mas tal decisão também não significa que não continue a narrar o meu quotidiano não-censurado para mais tarde recordar. Não. Deixei de escrever porque comprei um super sónico Olympus Digital Voice Recorder e agora antes de me deitar, em vez de puxar do pobre do caderno, abandonado na mesinha de cabeceira a ganhar pó como um condenado, dito em viva voce os meus pensamentos e feitos diários para a maquineta. Ideia genial, não?


On Governor Palin: Funny but Tragic

Monday, 22 September, 2008

From cowboys to hockey moms? You tell them, Harvard boy.


Momentos Coqueluxe Made in Iberia

Wednesday, 17 September, 2008

Cinco dias de volta a Londres e já estou a gagar por outras férias. As quase duas semanas que passei na Ibéria foram o antídoto perfeito para a tritura do quotidiano da cidade róial e embora não tenha feito nada de especial - a maior parte do tempo foi passado estiraçada na piscina ou na varanda do condomínio da Mommy voltada para o Atlântico a ler um livro e a contemplar as cores magníficas do mar e do céu, que lindos tons tem o nosso Portugal, não? – o pouco que fiz na Terra do Mar soube-me bem e tirou-me o edgy urbano de cima dos ombros.

Um dos melhores momentos da minha estadia foi certamente ver, abraçar, falar e estar com a Mommy. Embora as nossas ausências já não nos custem tanto como antes, porque entretanto habituámo-nos à distância e com a ajuda do telefone, todas as noites matamos saudades, palrando sobre o dia que tivemos, o dia que vamos ter na manhã seguinte e, em geral, sobre aquilo que nos cutuca o coração, é sempre bom estarmos juntas, carne com carne. Os cozinhados da Tia Ganga e a alegria e agitação infantil dos seus rebentos, meus parentes aprimados, também contribuíram para umas férias em família cinco estrelas.

Outro ponto alto foram as shades da French Connection e o guarda-roupa de Verão da Oli e da Topshop que finalmente pude estrear depois de dois anos passados a mofar no armário. Em Londres, desde 2006 que há secura de calor e que não tiro a ventoinha para fora, uma bênção para o meu humor mas um terrível agouro para os meus instintos fashionistas que cada seis meses imploram por uma mudança da estética do pano. De maneira que deu para fazer uso das minhas fantásticas aquisições, tanto esbeltas quanto novas.

As voltas de carro pela Arrábida e pela Andaluzia foram também um dos momentos tope três. Em Londres não tenho carro, porque simplesmente não preciso - o fantástico sistema de transportes públicos desta cidade máilinda liga a porta do meu castelo de Westminster a qualquer ponto da metrópole sem eu precisar de bater muito ao salto. Para além disso, o que se paga de imposto de carro, congestion charge e parquímetro nesta Londres engarrafada dava para comprar uma bomba zero cada três anos fiscais. Mas, faz-me falta conduzir e ser conduzida sentada no “pendura” e, por isso, cada vez que vou a Portugal faço questão de queimar tanques de gasóleo só para ver o mundo passar ao lado do asfalto. 

A visita do Johnny à Terra do Mar foi igualmente genial. Na manhã em que supostamente iríamos mais uma vez confirmar os meus escassos dotes para o desporto da raquete choveu (azares!), mas como na tarde anterior já nos tinhamos perdido nos prazeres etílicos da vida enquanto o sol se despenhava sobre o mar espalmado para além da barraquinha de praia em que estávamos sentados, o nosso karma foi devidamente reposto.

Embora à partida não tivesse parecido, outro momento supimpa foi quando a minha Vodafone Móvel ficou sem saldo a meio das férias. Em vez de ficar irritada pelos meus dez euros terem deslizado pelo cano dos megabytes abaixo tão rapidamente, preferi antes gozar do meu status incomunicado, preguiçosa suficiente para descer à vila e fazer um top up. Sem internet e com os emails mais importantes redireccionados para o Blackberry pude finalmente descontrair e apreciar os dias off relaxada. Daí não ter escrito este diário tantas vezes quanto tinha planeado e, depois de cair no hábito de não escrever, só hoje ter tido vontade de atirar estas palavras para o ecrã (perdoa-me, Maria Inês!).

E, last but not least, a compra de um novo par de óculos Carolina Herrera a preço euro rematou em estilo a lista de momentos coqueluxe made in Iberia. De vez em quando, gosto de vestir a miopia que me assombra desde a adolescência com uma preciosa peça de acessório, mesmo se a dita cuja seja só desfilada para minha sola contemplação no final do dia quando arranco as lentes de contacto dos olhos. E estou cá para mim que esta me fica mesmo a matar.

Desta forma as férias estivais chegaram ao fim, mas no Natal há mais. Só espero é que Dezembro não demore muito a chegar porque, embora ainda agora tenha regressado à minha amada vida de cidadã expatriada e trabalhadeira, já estou de ressaca. Pátria-mãe preciso de outro shot!


What Women Want from Men

Saturday, 23 August, 2008

Os homens têm a mania de se perguntar o que as mulheres querem deles, como se elas fossem, assim, bichos histéricos e muito do needy, cheias de esquisitisses e extravagâncias tresloucadas, complicadas de agradar e incrompreensíveis na sua tendência de reduzirem tudo ao emocional e hormónico. Eu tenho pena deles, homens que não sabem o que as mulheres querem, pois colocando-me na sua posição também eu entraria em esquizofrenia total se tivesse de me descodificar 24/7. Eu própria não sei o que quero dum homem e os meus critérios tendem a mudar à medida que vou subindo na age box. Lembro-me que, por exemplo, para muita risota dos graúdos, aos 13 anos, queria um “moreno-louro”; aos 18 anos, queria um que me fizesse descobrir outros mundos e voada para o Canadá acabei mesmo por perder-me nos braços luxuriosos de um vietnamita; aos 23 anos, queria um que me desse paz e sossego, em outras palavras, não queria homem nenhum porque tinha encontrado nos livros os melhores amantes de sempre; e, agora, aos 28 anos, quero uma lenda arturiana. Sim, uma lenda arturiana. Ora vejam. No outro dia, li no Sunday Times que para se livrar à morte, o jovem Artur teve um ano para descobrir o que as mulheres querem. Na sua busca incessante encontrou uma sábia donzela que lhe disse - What women want is exactly the same as men: sovereignty over their lives. E eu não poderia estar mais de acordo. Acho que neste momento, posso dizer com (uma certa) certeza, que é isso o que primeiramente quero dum homem. Um homem que me ame pelo que eu sou e me deixe ser rainha da minha gloriosa existência. Mistério resolvido. Ta da!


Felicidade aos Noivos: Versão Raio Parta a Solteirisse da Maria Lua

Thursday, 21 August, 2008

Recentemente, fui convidada a ir ao casamento do Juan e da Miranda na Andaluzia. O casal juntou-se em Paris há cinco anos atrás e com os dois agora na casa dos trinta, foi decidido que já estava na altura de selarem os seus profundos sentimentos e aconchegarem-se um ao outro para o resto da vida. Juan ajoelhou-se no cume de uma qualquer montanha em Machu Picchu e, rodeado de uma civilização ancestral e com um gostinho de coca na boca, pediu a Miranda em casamento, prometendo fazer da sua compincha uma Madame a sério. A boda, a ter lugar no início de Setembro, vai importar a moquecada de Londres para os arredores de Sevilha, prometendo muita farra e féria.

Mas até hoje, embora eu tenha dito que iria, não estava certa da minha presença. Para já, não sou muito adepta de celebrações em massa - consta que o Juan convidou mais de 300 pessoas para testemunhar o evento. Uma bestialidade numérica, se me perguntarem, que me transcende completamente, principalmente porque nem ele nem ela são parentes da Letícia e do Felipe.

Depois, acho muito estranho que embora o Juan me tenha dito várias vezes que jamais se iria casar, tenha agora proposto compromisso eterno à sua argentina. O que aconteceu? Voltou a enamorar-se da Miranda, foi? Ou será que as benéfices das isenções fiscais dos casados se tornaram irresistíveis? Ou será, antes, que entre o vasto stock de mulheres solteiras a viver nesta cidade ninguém mais lhe passa cartão? Não sei, sinceramente, não sei.

Finalmente, em terceiro lugar, não me apetecia ir ao casamento porque, neste momento, não tenho vontade nenhuma de ter a felicidade acuplada dos outros esfregada na cara. Eu sei, eu sei, “Côrror, Maria Lua, que coisa mais invejosa de se dizer”. Mas a verdade é que começo a ter tolerância zero para os meus moquecos, que se passeiam de braço dado por esta cidade como se Londres lhes pertencesse por direito ao amor. Embora as estrelas devessem estar a bafejar-me um lindo romance com direito a happy ending - afinal de contas, aparentemente, não há nada de errado comigo, sou solteira, boa rapariga e estou no primor das minhas carnes - dá-me a sensação que todos os meus companheiros de pabe, menos eu, andam a usufruir de tal zeitgeist. Pela primeira vez desde que os conheço, eles parecem ter encontrado do dia para a noite uma mais-que-tudo que lhes enche as medidas, trazendo-lhes suspeita áqueles “protegidos” por uma sorte menor que os destina a dias de verdadeira solidão, id est, euzinha. Sair com esta gente, ultimamente, passou a ser sinónimo de levar com casais felizes, membros exclusivos de um clube perfeição ao qual não fui convidada a aderir por falta de homem macho que me ponha o braço por cima dos ombros e me apalpe o peito eriçado.

Ai. É que tenho mesmo saudades dos tempos em que a maioria deles era solteiro ou sem intenções de assumir compromisso sério e nós éramos, assim, jovens e livres, fazendo o que nos apetecesse quando nos apetecesse sem dar satisfações a ninguém. Tinha a atenção de todos e entre eles movia-me como uma verdadeira rainha - a mulher desejada que na sua solteirisse residia todo o seu mistério.

Mas os meus dias de glória acabaram. Uma tristeza. Num espaço de seis meses, o meu mundo passou subitamente a ser dominado por machos comprometidos, onde a espontaneidade do já e agora foi substituída por um I’ll let you know, first I have to check with my girlfriend, enquanto eu passei de sex symbol a pitiful spinster. Mas também não é por escolha própria que ando sozinha! Não sou freira nem pudica, continuo simplesmente à espera do homem perfeito. E por ele não estou disposta a assentar acampamento com nenhum outro, nem a perder a minha liberdade e a minha joie de vivre em troca da rápida satisfação de necessidades ao sul do umbigo. Mas os moquecos já não entendem isso. Dividir a vida a dois e falar na primeira pessoa do plural passaram a ser a nova moda dos meus homens trintões. E eu, para minha frustração, passei a ser a solteira encalhada.

Pois eu digo, que se lixe. Vou rebelar-me contra a mudança dos tempos e a maturidade emocional que de repente assaltou a minha gente. Vou ao casamento, sim senhor, e vou levar a Mommy comigo. Ao contrário dos meus moquecos, posso não ter um date, mas tenho uma progenitora linda de morrer que me atesta as veias de orgulho e, tanto quanto me diz respeito, é mais charmosa do que qualquer vedeta cinco estrelas dos filmes de Almodóvar. Para além disso, e sobretudo, também acabei de comprar o vestido mais fabulous que vi nos saldos da Debenhams, que condizidos com uns belos de uns stilettos encarnados e uma lingerie e uma clutch da mesma cor, não me deixarão ficar de todo mal se por uma infeliz eventualidade puserem a mim e à Mommy a comer na mesa das crianças. Caramba, que se é para desfilar a minha singlehood à frente das parelhas dos meus moquecos, então que seja com muito estilo.

Roam-se, meus lindos.

Armchair Traveller

Tuesday, 19 August, 2008

Desde ontem e por mais três noites, a BBC1 irá passar o documentário The Man Who Cycled the World, as aventuras de Mark Beaumont, um escocês que se fez ao mundo em bicicleta com o objectivo de quebrar o Guiness World Record, percorrendo quatro continentes e 18 mil milhas em menos de sete meses.

Nos dias que correm, devo de dizer, ando muito carente de aventura e adrenalina e, por isso, este documentário caiu nas tv listings como uma ginjinha. Desde que vi o Long Way Round na BBC2, que a minha vontade de ir à descoberta de outros mundos e de ver in loco as pessoas e os lugares de que leio em primeira mão nos jornais diários cresceu exponencialmente. Começo a fartar-me da minha visão unidimensional, limitada à tela da televisão e à folha do periódico, e dou por mim a sentir esta comichão no fundo do estômago que me leva a sonhar com as maravilhas de continentes encantados - empestados de sida, pobreza, fome e governos autoritários, verdade seja dita - mas cheios de excentricidades e sensações exóticas a absorver.

É a primeira vez que sinto esta wanderlust. Para ser franca, sempre fui muito elitista na escolha de destinos de férias e, tirando o Brasil, o Peru e o Marrocos, eu nunca gostei de me fazer ao subdesenvolvido e ao pestilento. Moqueca das Europas e da América do Norte, raramente pisei o solo de um país que tivesse um Produto Nacional Bruto mais baixo do que o das Ibérias. Desde pequena que oiço a Mommy dizer que se é para sairmos do aconchego da nossa casa, então o melhor é irmos para um sítio que tenha, pelo menos, o mesmo conforto. E eu concordo com ela, pois nesta vida podem tirar-me tudo, mas não me tirem a Mommy e o meu conforto que sem os dois eu não fui geneticamente fabricada para sobreviver.

Mas, agora, o mundo apresenta-se-me com outras cores, com outras atracções, com outros afectos humanos. Richard Dawkins, no seu documentário da Channel 4, The Genius of Charles Darwin, disse uma coisa fantástica, não exactamente por estas palavras, mas com o mesmo sentido - por mais que eu admire as descobertas de Darwin uma pergunta ele ignorou fazer quando pensou a Teoria da Evolução: se as espécies estão geneticamente predispostas a lutarem pela sua sobrevivência e, dependendo do seu sucesso, ora evoluiem ou extinguem-se, então como é possível explicar coisas tão “contraprodutivas” como a generosidade e a ajuda ao próximo?

Nas suas aventuras de Londres a Nova Iorque via Sibéria e de John O’Groats (Escócia) a Cape Town (África do Sul), Ewan McGregor e Charlie Boorman comprovaram isso mesmo. Por onde quer que passassem, montados nas suas lindérrimas BMWs, quer fosse pelo Cazaquistão, Mongólia, Botswana, Líbia ou Etiópia, as pessoas paravam na estrada para os saudarem, ajudavam-os a atravessarem rios e estradas de lama, soldavam-lhes os chassis e ofereciam-lhes comida e abrigo. Quanto menos elas tinham, mais elas lhes davam e, isso, não é uma fraqueza biológica, é uma qualidade divinal que perpetua a minha fé na evolução do Homem, mais do que em deus.

E assim ando eu a perder a oportunidade de testemunhar essa generosidade humana fora da minha zona de conforto, e a pensar como seria scrumptious fazer uma viagem de meses pelas Ásias, Américas e Áfricas, posta a cavalo num potente motor, qual amazona do cabedal, acompanhada por alguém que me enchesse os olhos de sorrisos e o coração de ganas pelo desconhecido, como o McGregor e o Boorman.

Mas como não tenho mota, nem companhia, nem tempo, nem recursos, nem loucura suficiente para largar o quotidiano, viajo antes pela mente com a ajuda da minha fecunda imaginação. Na estante, tenho tudo o que preciso - Long Way Round, Long Way Down, Race to Dakar, Jupiter’s Travels e The Motorcycle Diaries - o meu fix literário que oxalá me dure até ao Natal. E, depois, logo veremos.


Adeus Verão

Tuesday, 12 August, 2008

O Verão por estes lados parece já ter terminado. Desde há uma semana a esta parte, o sol esconde-se envergonhado por cima de um sedoso manto de nuvens cinzentas que carrega os céus de Londres como puro chumbo. As temperaturas não voltaram a passar dos 21 graus e o vento enregelado sopra de mansinho. Os turistas, mal habituados, sofrem com o frio e os salpicos que caiem da atmosfera, cobertos de impermeáveis e rascas brollies da Union Jack, compradas como último recurso a dez libras cada uma nas lojas de souvenirs da esquina. As pessoas, em geral, queixam-se do tempo e da efemeridade dos dias quentes e solarengos. Os seus semblantes já não são tão rápidos a dispararem um sorriso ou uma palavra mais atrevida. O Outono chegou e a sensualidade do calor voltou a hibernar.

Eu, por outro lado, não gosto muito do Verão. Na verdade, gosto mais de qualquer outra estação do ano do que do Verão. Nunca fui adepta da praia, nem do bronzeado chamuscado. Aprecio muito mais uma lareirinha acesa do que uma toalha estendida na areia. Os meus hábitos são mais amigos do ar fresco e pluvioso do que das temperaturas saarianas que me derretem o miolo. Por exemplo, não há nada que me dê mais prazer do que ler o Sunday Times enquanto oiço uma boa música jazz nos speakers e a chuva cai lá fora. Sou parcial às delícias do conforto que me traz ao coração deitar-me debaixo das mantas, estendida no sofá, a ver a última novidade do Blockbuster, enquanto os pés se esfregam um no outro. Gosto de chegar a casa e acender as minhas velas aromáticas com cheirinho a baunilha, manga e maçã picante que trago espalhadas pelas soalhadas. Gosto de botas, collants grossas, vestidos de lã, luvas até ao cotovelo e casacos pesados. Gosto de arco-íris e radiadores acesos. E gosto de chá quente e do cheiro a terra molhada.

Assim sou eu, uma moqueca de hábitos invernosos que ama o brilho, a energia e a harmonia dos dias “mais tristes”. Por isso, ao contrário da maioria dos londrinos, até estou feliz por o Verão ter terminado. Com ele, parece também ter terminado mais um capítulo da minha vida. Ando muito auto-amada, ocupada e realizada. Mas isso fica para elaborar noutro dia de chuva. Amanhã, certamente.


Dois Anos Depois

Friday, 18 July, 2008

Nos últimos dois anos, desde que escrevi as últimas linhas do Maria Lua Ponto Com, que se me recordo bem, terminou na noite em que o Peter decidiu iniciar um escaldante affair com esta inocente, muito crédula e para sempre escarlatada moqueca, muita coisa mudou.

2006

Em Outubro de 2006, no mesmo mês em que a Coreia do Norte fez explodir um engenho nuclear nas párias montanhas do seu país, eu comecei a dar aulas como professora assistente na minha prestigiada academia, também conhecida por Londres Sempre Eterna, a licenciandos do último ano, turmas de cachopos simpáticos que durante dois anos têm-me mimado com notas acima da média e emails de agradecimento de puxarem do lencinho. No mesmo mês, também comecei um mandato de um ano, não remunerado, como chair duma Associação académica de renome internacional, cujo nome não interessa para aqui, a qual só me deu dores de cabeça, um par de úlceras nas veias, animosidades com antigas amigas de pub e a promessa de que nunca mais me apanhavam numa igual. A experiência profissional que adquiri, essa, foi o que me valeu, pois aumentou exponencialmente a cota da minha reputação académica junto do mercado das transacções intelectuais.

No mês seguinte, em Novembro de 2006, enquanto Saddam Hussein era condenado por crimes contra a humanidade, eu decidi começar a fumar - eu sei, eu sei… - por nenhuma razão especial senão aquela de que queria sentir nas minhas roupas, no meu cabelo, na minha pele, nas minhas ventas e nos meus dedos o cheiro êxtasiante do Peter. Estou certa que outras moquecas concordarão comigo quando digo que o odor mais reconfortante, doce e afrodisíaco do universo é o cheiro do homem que amamos e, por essa altura, eu andava tão perdida de luxúria pelo súbdito de Sua Majestade, o mesmo que me trazia enrolada no dedo mindinho do pé, que o seu cheiro a nicotina passou a ser o meu perfume de eleição. Que nojo, sei eu muito bem, e agora é que eu merecia mesmo ser atirada contra a parede, depois de uma confissão destas que coloca em questão todo o meu well-scented world sustentado ao peso de um pequeno resgate de um rei gasto em perfumes franceses e besuntos de duche e depois-de-duche das mesmas marcas.

Bom. Mas continuando. Por essa altura, também conheci o Juan, um espanhol de pestanas compridas e longa network de amigos e conhecidos que numa noite de copos no pub da faculdade apresentou-me a um grupo encantador de moquecos e moquecas vindos dos quatro cantos do mundo. Em pouco tempo, a trupe do Juan tornou-se também na minha gangue, no oxigénio que ainda hoje continua a revitalizar-me o humor e a auto-estima cada vez que me cruzo com eles no Departamento ou chego a uma house party e dez pares de braços se estendem para me abraçar e amassar o ego.

E assim os meses se passaram. Saddam Hussein foi enforcado e eu terminei tudo com o Peter, cansada da quickie e da sua bigamia.

2007

No início de 2007, a Bulgária e a Roménia entraram na União Europeia e também eu decidi andar com a vida para a frente, dando início ao que viria a ser um muito curto romance com o Preston, rapaz que embora nos seus tenros vintes, se mostrou frustrantemente impotente. Em menos de nada, Chirac anunciou os seus planos de reforma e o Preston foi à vida. Marinheiros britânicos foram capturados e soltos pelas autoridades iranianas e o Peter voltou à carga, sniffing around like a dog in heat, tentando-me com o seu cheiro a tabaco, as suas mãos sôfregas e o seu beijo húmido. O independentista Scottish Nationalist Party ganhou as eleições para o parlamento escocês, Gordon Brown substituiu Tony Blair em 10 Downing Street e o Peter e eu andámos enroscados como um par de teenagers, escondidos pelos cantos dos prédios como dois agentes da Gestapo exilados na Argentina.

Com a chegada do Verão, melhor dizendo, com a continuação da chuva e do frio - quem vive nesta cidade sabe tanto quanto eu que, no ano passado, o Verão chegou e foi-se embora no dia 23 de Maio - eu e a Mommy fomos visitar o padrasto irlandês a County Kerry, antes de rumarmos a Paris para mais uma expedição anual às lojas da moda da capital das luzes.

Por essa altura, Karl Rove demitiu-se da administração Bush, a Indonésia foi abalada por três fortes terramotos e eu ganhei, finalmente, à custa de muita lágrima salgada e noite mal dormida, dois dedos de testa. Depois de mais uma esfregada no Peter, decidi que outro capítulo da minha autobiografia, “Melhores Quecas de Sempre”, tinha de chegar ao fim e, sem pena minha, ser encerrado para sempre. Maria Lua voltou a reclamar o seu velho papel de estrela principal da sua própria vida, mulher depilada e muito auto-amada, sem tempo, inclinação, nem pachorra para desencalhar homens de tomatada light, mal-copulados e happy-fobiosos.

Em Outubro de 2007, no mesmo mês em que Benazir Bhutto regressou ao Paquistão, eu terminei o mandato e saí de vez da Associação, iniciei o segundo ano como professora assistente e comecei a trabalhar numa revista da especialidade, que por acaso não é a minha. Para além disso, também fui recrutada pelo Departamento para trabalhar como VLE Designer juntos dos deuses catedráticos, que em pouco tempo se encantaram com os meus talentos para o IT e o HTML e se tornaram numa muy apreciada legião de fãs. Tudo coisinhas boas, como podem imaginar.

O ano de 2007 acabou com um par de dates rançosos, a declaração do estado de emergência no Paquistão e na Geórgia e a votação do Tratado de Lisboa.

2008 

Ano novo, vida nova, ou quase! Mais um par de capítulos foram escritos de fresco, acabadinho de sair do forno, que com o coração em banho maria, já estava na altura do doutoramento andar para a frente. Enquanto o Quénia afundava em conflitos étnicos, Castro demitia-se da presidência de Cuba, Dmitri Medvedev era eleito chefe supremo da Rússia e Bertie Ahern deixava de ser primeiro-ministro da Irlanda, eu esmerdei-me a escrever a minha master piece. Ainda dei um pulo à Ibéria para fazer pesquisa nos arquivos e bibliotecas da metrópole do Império e de regresso a Londres, com as ideias mais aclaradas e bem fundamentadas, a minha contribuição para o mundo das politiquices foi designada de “original” e “inovadora” por aqueles que muito sabem e tudo conhecem - ai, música para os meus neurónios, que agora é só escrever mais uns quantos capítulos e a coisa fica dada como pronta, eu emancipo-me da Never Land e faço-me ao mundo dos crescidos como gente grande, juro por deus que é só mais um ano!

Ou será que é?

Há dois meses atrás, em Maio, portanto, depois do Peter ter voltado a aparecer do nada, vindo bater às portas do real Castelo de Westminster, só para ser enviado de volta para de onde se veio a arrastar, frustrado comigo e com a minha teimosia pois os planos que tinha para a soirée deviam ser mais excitantes do que a noite que acabou por passar na rua a olhar para o alto da minha janela, fui convidada por um colega que me conhecia dos tempos da Associação a substitui-lo na Faculdade do Rei. Ou seja, fui convidada a deixar o sufixo de “assistente” para trás e, durante um ano, tomar as rédeas de um par de cadeiras leccionadas a licenciandos e mestrandos no prestigiado departamento das Ibérias. A oferta foi aceite na hora e desde então tenho estado a andar pelas nuvens, gratas mil pelas oportunidades que esta Londres me tem oferecido desde que aqui assentei malas há quatro anos. Em troca de muito trabalho, bruta dedicação e sovaco encharcado, esta minha terra do posh accent tornou-se na cidade das oportunidades, das ambições concretizados, das aspirações realizadas e dos desejos saciados. É a Londres que chamo de casa, de porto de abrigo, de colo de mãe. É o meu útero e as minhas entranhas. O cenário perfeito do meu conto de fadas. O meu pouso de eleição, onde a chuva não pára de cair de forma romântica e o céu é para sempre cinzento chouette.

Hoje, nos dias que correm, Israel e o Hamas declararam tréguas, Ingrid Bettancourt foi resgatada das mãos das FARC e eu ando por aqui, quase, quase, a largar o vício do fumo (despojos da relação com o Peter!), mas sempre a lavrar que nem uma alentejana, sem medo de sonhar grande. Com o coração nas mangas, ainda arrisco o ocasional date, mas jamais digo não a uma saída com o Juan e os moquecos para os pubs da cidade. Desde que o Chardonnay corra solto e hajam black cabs a circular, a Maria Lua poderá ser vista em qualquer parte de Londres a viver um romance perfeito com a capital de todos os seus amores.


Maria Lua, Parte 2

Wednesday, 16 July, 2008

Maria Lua vive há quatro anos em Londres. Com 28 anos de idade, está a doutorar-se numa das mais prestigiadas faculdades do mundo letrado e, para além de ganhar a vida como professora académica, trabalha como VLE designer e como Managing Editor Assistant numa revista da especialidade. Quando não está escravar como uma isaurinha, Maria Lua gosta de sair para os pubs com os seus moquecos, devorar a Vogue, a Economist e a Newsweek, usar e abusar da assinatura do Blockbuster e escrever, escrever muito. Embora não troque a solidão do seu Castelo de Westminster por nada neste mundo, nas noites mais chuvosas, Maria Lua sonha secretamente com o dia em que finalmente irá conhecer o seu príncipe encantado e aceitar, sem traumas históricos, a versão romântica de um qualquer Ultimato Inglês revisitado, Mary Moon, marry me!

Como já devem ter reparado, o Pink al Fresco é a sequela do Maria Lua Ponto Com, escrito entre Abril de 2005 e Setembro de 2006, e tem como única e exclusiva finalidade manter a sanidade mental da autora num mundo académico que tende a ser mais cinzento do que pink.

Por isso, nomes e detalhes foram modificados ou omitidos no sentido de proteger a privacidade da autora e daqueles que a rodeiam. A verdade aqui contada al fresco é a da Maria Lua, conhecida pelos seus exageros dramáticos e prosas teatrais, e, como tal, nem sempre coincide com a dos outros.

Maria Lua is back!