Gente Minha



A Praga dos Doutores

Friday, 5 September, 2008

Portugal virou país de Doutores. Para aonde quer que me vire, é tudo Doutor com exigências de tratamento obsequioso. Não importa o curso de licenciatura que se tire, desde o Assistente Social até ao Informático, passando pelo Sociólogo e o Farmacêutico, todos intitulam-se de Senhores Doutores e o povo submete-se à subserviência que tal título infere como se os portugueses vivessem numa sociedade de castas, dividida entre os sacerdotes universitários e os intocáveis ignorantes.

Mas desde quando é que aos olhos da lei, os licenciados são doutores, pergunto-me eu? Doutores são os médicos e os doutorados. Em Inglaterra, nem sequer os advogados e dentistas são chamados de tal título e, se formos ver bem, também a lei aqui (se não estou enganada) não obriga a tal coisa. Então para quê perpetuar um costume terceiro-mundista que nos divide indiscriminadamente como sociedade e existe na pretensão de que quem frequentou a faculdade durante quatro anos é gentinha de status? Pois não se soou, resistiu e lutou tanto para que em 1976 pudessemos todos ser tratados de forma igual, imparcial e justa perante a lei portuguesa? Então qual o objectivo de prolongar esta desigualdade social só para uns poderem se engrandecer à custa dos outros?

Embora eu seja licenciada, pós-graduada e mestrada, eu não sou doutora, nem nunca me intitulei de tal coisa, pois Doutor, para mim, é uma palavra sagrada que envolve muita responsabilidade social, sendo apenas atribuida áqueles que estão devidamente habilitados a salvar vidas - os verdadeiros “sacerdotes” - ou aos que se tornaram especialistas supremos de uma determinada temática. Nas salas de aula londrinas, ninguém me trata por Miss ou Teacher, muito menos por Doctor ou Professor, cruz credo. Sou apenas Maria Lua para os meus meninos vintistas porque é assim que o exijo e, felizmente, é assim que o sistema britânico funciona. Doctor é o doutorado, e Professor é o catedrático e nem esses são tratados por tal formalidade pelos seus estudantes. Antes, esquivam-se a rótulos diferenciados e encorajam os pupilos a chamarem-nos pelo primeiro nome, porque na academia não pode haver cerimónias se o conhecimento tem de fluir sem preconceitos nem intimidações.

Assim, o supervisor da minha tese é apenas o Jonathan, embora seja Doctor e um dos maiores especialistas mundias da minha área de especialidade. O conselheiro da minha tese é o Justin, embora seja Professor e com publicações referenciadas nos cinco continentes. Já frequentei os pabes com o Jonathan e, de vez em quando, tomo conta da adorável filhota do Justin. A nossa informalidade não coloca em causa o respeito imenso que tenho pelos dois, muito pelo contrário. É na humildade com que eles se entregam ao profissional que recebem toda a minha admiração.

Então, minha gente, pergunto-vos eu - para quê a pachachíce do Senhor Doutor? Se a lei não vos obriga a chamar os Lics de Doutores, então para quê sujeitarem-se a tanta falsa pomposidade só para mimarem complexos de superioridade de gente com tiques de grandeza? O tratamento educado perante o desconhecido ou o superior - se o mesmo não for representante do Estado ou do regime, atenção, a quem se deve muita vénia, mais pelas instituições que representa do que pela pessoa que é - deverá ser suave e cordial q.b. - ou seja, Senhor(a) Apelido. E, chega.


First Impressions

Thursday, 4 September, 2008

Primeiras Impressões de Sôdona Maria Lua desde a Aterragem na Portela:

 

1. “Ai, c’alôr!”

2. “Mommy, doem-me ou maxilares. Ou desloquei-os à saída do avião ou a minha esqueletura já estranha o falar português durante tantas horas. Charla agora tu um pouco, enquanto eu reposiciono a boca in portuguese mode.”

3. As Docas continuam tão belas quanto antes. Um jarro de sangria à frente do nariz e uma Mommy em primeiro plano com uma vista divinal 180º em background sobre a outra margem e eu quase me esqueço da vida. A tarde passa a voar, enquanto as nossas gargalhadas se misturam com o barulho das gaivotas e as nossas faces ficam cada vez mais e mais rosadinhas. Pure bliss.

4. “Ai, que as nossas gajas da Ibéria são mesmo mignon, Mommy! Meninas coquette e livres de obesas. Sim, senhora.”

5. “Então quando começam os documentários, as reportagens, os filmes, os chat-shows?”, pergunto eu mal habituada à televisão de qualidade em horário nobre. “Quais documentários, reportagens, filmes e setexôs?”, contesta a Tia Ganga com escárnio na voz, “Aqui é novelas das seis à meia noite!”, afirma ela agora com um sorriso de orgulho no produto nacional. “E são bem giras!”, remata por fim, enquanto eu decido-me mentalmente a passar o resto das noites da minha estadia a ler os livros que trouxe na mala.

6. “Que delícia de comida, Mommy! O que é isto, o que é isto?”, pergunto eu a mugir de prazer. “É arroz de tomatinho com pastéis de bacalhau”. Silêncio. “Olha, vê lá tu que eu já nem sabia o que isso era.”

7. “Mommy, adoro o teu novo acessório. É horrores de fantástico.”


Iberia, Here I Come

Sunday, 31 August, 2008

Ibéria, minha princesa, põe-te linda e vistosa, abre os teus céus azuis-violeta e os risos da tua gente, porque daqui vou eu amanhã cedinho nas asas da tua TAP, desejosa de te abraçar e perder-me no teu aconchego familiar. Estás a ver, amor dos meus amores, que eu até nem sou filha tão desnaturada, pois para compensar a minha ausência durante os teus mais recentes verões incendiários, tirei doze dias só para estar contigo neste último mês do Estio. Sou uma grande valente, tens de admitir, pois sabes muito bem como o calor que emana do teu chão e o ar escaldante que sopras me levam à loucura. Quatro dias por cada visita veraneia que falhei nos últimos três anos e para estrear todo o chiquérrimo guarda-fato de verão que tenho acumulado entretanto, mas raramente usado nesta cidade polar, e a mais não sou obrigada.

Bom. Trata lá de dizer à Mommy para não se esquecer de me ir buscar ao aeroporto de Lisboa. Eu sei que a Mommy nunca falha as esperas, mas tu deves ter-te apercebido como ultimamente ela tem trabalhado tanto, pobrecita minha, a salvar vidas e a aliviar o sofrimento dos mais enfermos qual Madre Teresa dos hospitais públicos, que fico com receio que a rainha me adormeça e se olvide que tem uma filha amada para ir recolher.

Vê lá se também super-botóxas a Terra do Mar em antecipação da minha chegada que eu estou a pensar passar dias a fio espreguiçada no condomínio de praia da Mommy, virada para o Atlântico com o lapetopas no colo a trabalhar no livro, embalada pelo barulho doce da criançada a chapinhar na piscina adjacente. Principalmente, preciso que me assegures que a Terra do Mar porá boa cara para receber o Johnny quando ele me vier visitar por um par de dias. Tu sabes como ele adora desfilar a beer gut quarentona pelo court de ténis e certamente irá desafiar-me a um par de partidas só para eu, mais uma vez, lhe provar que moqueca com corpo bom não tem necessariamente de ser boa com o corpo. Por isso, não mandes chuva.

Chuva, essa, podes tu deixar para o casamento do Juan na Andaluzia. Desde que ele me disse que estava a pensar sentar a Mommy na mesa dos pais da noiva e a mim na mesa dos solteiros, restos humanos sem enquadratura social e por isso relegados para o canto dos leftovers, que lhe estou com um pó que nem imaginas. Desde quando solteirísse feminina virou espécie leprosa, usada e abusada para tapar buracos em mesas de boda? Só porque a Mommy não é homem, não tenho agora direito a sentar-me ao lado dela, é? Só porque não sou mulher de ninguém, não tenho a honra de fazer parte da mesa dos meus moquecos aparelhados? Pois eu demando affirmative action para os solteiros e o fim desta abominável discriminação! Isto é racismo emocional, porra. Por cada dois casais deveria ser obrigatório sentar o mesmo número de solteiros para que todos pudessem confraternizar em doce harmonia. Mas não, como os casais não gostam de se lembrar da liberdade que perderam e os solteiros não gostam de se lembrar há quanto tempo não têm sexo on demand, o melhor é viverem todos num feliz apartheid.

Em troca disto tudo, prometo-te, Ibéria formosa, minha pátria dos hérois do mar, escrever neste diário o mais que possa e me apeteça. A Tia Ganga já me comprou o Banda Larga Móvel da Vodafone, ena, ena, o que quer dizer que vou ter internet 24/7, em casa, na esplanada, no court de ténis, na piscina, no carro novo da Mommy, a caminho da Hispânia, no restaurante e no aeroporto. Uma alegria.


Évora nas Bocas do Reino*

Friday, 22 August, 2008

A luta de titãs entre Nelson Évora, natural de Cabo Verde, mas português de cidadania, e Phillips Idowu da Team Gi Bi e residente em Londres não se previa fácil e os resultados foram simplesmente surpreendentes. Idowu achou-se vitorioso, mas no quarto salto, Nelson subiu às nuvens e aterrou cinco centímetros mais longe do que o inglês, ganhando um medalheiro de ouro. Olé, Portugal!

 

Idowu Takes Silver behind Evora

BBC Sport (21 August 2008) - Britain’s world number one Phillips Idowu had to settle for a silver medal in the Olympic triple jump after being out-jumped by Portugal’s Nelson Evora. Evora took Portugal’s first gold of the Beijing Games with a mark of 17.67m, ahead of Idowu who recorded 17.62m. Leevan Sands of the Bahamas took bronze with 17.59m, while Britain’s Larry Achike was seventh with 17.17m. Idowu, previously unbeaten this season, took the lead after three rounds but Evora’s fourth jump proved decisive. (…) Evora, who was a surprise winner at the 2007 World Championships, becomes his country’s first gold-medal winner in an Olympic field event. He had arrived in China with a season’s best of only 17.24, which ranked him at 17th in the world this year, but he found his form when it mattered.

Gold for GB Duo; Silver for Idowu

Sky News (21 August 2008) - Idowu, who had dyed his hair a striking shade of red for the games, went into the competition with hopes of clinching the top prize, and led the field for three rounds. But in the fourth jump, Portugal’s Nelson Evora leapt 17.67 metres - 5cm ahead of Idowu and enough to claim gold.

Team GB Aiming to Deliver a Knockout Blow

The Times (22 August 2008) - There had been high hopes that Phillips Idowu would add to the haul by the time he landed on his backside in the triple jump, but he had to settle for a silver medal, beaten by five centimetres by Nelson Évora, of Portugal. “It hurts - I’m upset - I came here to achieve a lot more and I just fell short,” Idowu said. At 29, these Games may have represented his best chance of gold, but Idowu was adamant that he would be back for London 2012.

Beijing Olympics - As It Happened, Aug 21

Daily Telegraph (21 August 2008) - 1.54pm Idowu slips to second: The world champion Nelson Evora of Portugal has just leapt 17.56cm, pushing Phillips Idowu down to second place. Idowu doesn’t improve on his first-round leap with his second attempt. (…) 2.39pm Another triple-jump twist: And it’s not a good one. World champion Nelson Evora from Portugal has gone ahead again with a leap of 17.67cm. Idowu needs a lifetime best to get the gold. (…) 3.14pm It’s silver for Idowu: Phillips Idowu could not improve on his earlier jump and has to be content with a silver. Nelson Evora of Portugal takes the gold. Disappointment for Team GB, although he did jump a season’s best.

Olympic Wrap for Day 13

Financial Times (21 August 2008) - Britain’s Phillips Idowu lost out on Olympic gold by 5cm in the triple jump final. Idowu produced his best jump of the year to lead with 17.62m after the third round, only to see Nelson Evora of Portugal then leap 17.67m in round four.

Olympics: Campbell Blames Coach for Relay Disaster

The Guardian (22 August 2008) - (…) Meanwhile Idowu’s season’s best of 17.62m was not enough in the triple jump as Nelson Evora of Portugal won with 17.67m. “I can’t believe I’m standing here with an Olympic silver medal and I’m really pissed,” said Idowu. “It [the silver] is not what I wanted but I’ll take it.”

 

*Post dedicado à Pécola, por ser uma destemida natural born optimist.

Errata: Nelson Évora nasceu na Costa do Marfim e não em Cabo Verde como foi dito acima, embora tenha competido com a camisola deste último país durante vários anos. Obrigada pela correcção, Pedro!


Olimpíadas

Wednesday, 20 August, 2008

Da mesma forma que Portugal anda a perguntar como é possível só se ter ganho até agora uma única medalha de prata nos jogos olímpicos de Pequim, o reino róial tem perguntado o mesmo mas ao inverso, ou seja, como é possível que se tenham recolhido mais medalhas nesta olímpiada do que em qualquer outra desde 1908 (as we speak, 16 de ouro, 10 de prata e 10 de bronze).

As respostas, no meu entender, são deveras simples. Enquanto os apoiantes da Team GB fizeram uma restrospectiva da sua história desportiva, descobrindo o mistério da sua actual prestação maravilha nas políticas financeiras do já esquecido Primeiro Ministro tory, Sir John Major, que em 1994 decidiu investir uma boa percentagem da lotaria nacional nos clubes desportivos da nação, em Portugal, por outro lado, são os próprios políticos que atacam os desportistas desavergonhadamente, culpando os mesmos pela falta de vitórias nacionais, tratando-os de forma condescendente, “A culpa é toda vossa!”, dizem os coitados dos desportistas, ”Não, é vossa”, responde o Secretário de Estado, ”Não, é vossa que não nos dão os apoios necessários!”, “Não, já vos disse, a culpa é vossa e, assim como assim, como podem vocês saber de quem a culpa é, se com tanto músculo agarrado ao osso mal vos sobra espaço para um cerébro, seus brutos irracionais?”, pergunta o Secretário de Estado socialista com uma petulância que me faz lembrar a obtusidade de outros tempos salazares:

Foi já pela madrugada em Pequim (17h00 em Lisboa) que o Governo, através do secretário de Estado da Juventude e do Desporto, Laurentino Dias, reagiu aos maus resultados dos atletas portugueses. Criticou algumas das suas declarações e lembrou-lhes que “aos Jogos Olímpicos não se vem apenas participar, mas para competir a sério, obter resultados, porque esta é a competição mais séria e exigente do mundo”. Laurentino Dias disse ainda que os atletas estão em Pequim “para competir desportivamente, não para prestar declarações. Eles são melhores a fazer desporto do que a prestar declarações”.

In “Laurentino Dias Lembra aos Atletas que Devem Competir a Sério”, O Público, 20 de Agosto de 2008. 

Bom. Mas, independentemente de quem seja a culpa, questiona Victor Ferreira, jornalista do Público, como é possível que Portugal tenha investido mais tempo e dinheiro nas olimpíadas de Pequim do que de Atenas, aumentando o seu investimento nos desportistas nacionais em dois milhões de euros, e ainda assim os resultados estejam a ser flagrantemente mais fracos do que há quatro anos atrás?

Meus queridos, meus queridos, calma, muita calma.

Não há razão para entrar em pânico, nem para ver nas fraquezas físicas dos nossos Sebastiões Coq Sportif motivos de decadência nacional. Nós somos o que somos no grande plano da ordem internacional - pequenos, fracos, irrelevantes, descartáveis e insignificantes - e não são umas derrotas no estádio que nos vão tornar ainda mais pequenos, fracos, irrelevantes, descartáveis e insignificates aos olhos do mundo.

Mas, dito isso, ao contrário de muita nação sem poderio militar e económico, nós temos uma grandiosidade interior que nos coloca à parte das outras, uma história de impérios (mesmo se de papel) que nos enche o ego nacionalista e os livros das nossas crianças com estórias de conquista, e uma longevidade estado-territorial inigualável. Por isso, vamos ter muita calma, que não é Pequim que nos tirará a tusa portuguesa nem nos destinará à extinção. E, a propósito disso, vejam o exemplo do reino róial. Quando este foi eliminado do Euro 2008, ainda antes do campeonato começar, ninguém ameaçou atirar-se do Big Ben a baixo. Simplesmente, fingiu-se que o campeonato nunca aconteceu e a vida continuou para a frente.

Para além disso, como eu disse acima, Sir John Major é tido como o herói destas olimpíadas, mas em Atlanta, dois anos depois de ter decidido investir parte dos ganhos da lotaria nacional nos clubes desportivos, a Team GB só trouxe para casa uma (unzinha) medalha de ouro.

Investimentos financeiros no desporto, portanto, parecem só ter resultados a longo prazo. Os dois milhões adicionais que foram investidos no desporto em Portugal nos últimos quatro anos, se calhar, não são suficientes e quando o forem, se calhar, só se traduzirão em medalhas uma década e meia depois.

Por isso, calma, minha gente, muita calma que ainda temos umas coisinhas a aprender com os britânicos e toda uma eternidade pela frente.


Mini-Break

Friday, 1 August, 2008

A Mommy chega hoje a Londres com duas crianças aprimadas para uma meia dúzia de dias passados na cidade e redondezas. O plano das promenades ficou concluído esta tarde depois de uma meticulosa pesquisa de horários, mapas e lugares diferentes para visitar. Com mais de doze visitas à Angleterra debaixo do cinto, a Mommy já conhece Londres tão bem quanto eu. Uma desgraça. As minhas limitadas escolhas obrigam-me a ser horrores de criativa. Bom. Só espero que ela goste do itinerário surpresa que tracei especialmente para ela e para a pequenada. O meu regresso à escrita fica prometido para finais da próxima semana depois da família ter evacuado e eu, por suposto, ter sido coroada the bestestest cousin in the whole world. Inté.