▒ Are You Having a Laugh?



▒ Are You Having a “Rigolé”?

Thursday, 28 August, 2008

“There’s always something fishy about the French.” Noel Coward

“If the French were really intelligent, they’d speak English.” Wilfred Sheed

“If the French noblesse had been capable of playing cricket with their peasants, their chateaux would never have been burnt.” G. M. Trevelyan

Para quem tem uma História em comum com destinos cruzados desde os tempos da invasão da Inglaterra pelos Normandos na Conquista de 1066, a Inglaterra e a França bem poderiam se desgostar menos e suportarem-se um pouco mais. Digo eu que se o relacionamento entre estas duas potências nunca foi exactamente amistoso, tal se deve ao facto de ambas serem horrores de invejosas das suas respectivas histórias, do seu poderio imperial, da influência e do domínio cultural que exerceram no mundo durante séculos a fio, e dos valores revolucionários que experimentaram em casa e exportaram além-fronteiras, inaugurando novas eras no pensamento humano e político.

Mas comecemos do início para melhor compreendermos até que ponto estas duas potências se irritam uma à outra.

Para começar, os ingleses despeitam as suas origens culturais e esnobam a língua francesa com uma arrogância que só lhes fica mal, se tivermos em conta que depois da Conquista dos Normandos, a língua falada na corte inglesa durante a idade medieval foi exclusivamente o francês. Muitos dos costumes e da cozinha gourmet, assim como parte da monarquia, clérigo e aristocracia foram mesmo importados de França, mas god forbid um inglês se gabar de tal passado.

Por outro lado, a França construiu orgulhosamente a sua história medieval com a “ajuda” da Inglaterra. O mito da sua mártir nacional, Jeanne d’Arc, foi formulado à custa da expulsão dos ingleses do solo francês e da vitória das tropas francesas sobre as inglesas, aquando da Guerra dos Cem Anos. Desta forma, não se pode dizer que só a história medieval inglesa tenha sido influenciada pela França, também a Inglaterra influenciou a história daquela, ajudando-a, acidentalmente, na construção do discurso político que legitimaria a existência da nação francesa a partir da Revolução de 1789.

Chegados ao período da Reforma Protestante, depois de muito conflito interno, a Inglaterra passou a denominar-se um reino protestante e parlamentarista, enquanto a França se rendeu ao catolicismo de Luís XIV e caiu no absolutismo, marcando claramente uma separação de temperamentos políticos entre as duas potências. Ambas eventualmente fizeram-se ao mar e esculpiram impérios opulentos e invejáveis, não se coibindo de combater quando as suas ambições ultramarinas se sobrepunham.

No início do século dezanove, a Inglaterra derrotou a França nos campos de batalha europeus, desta feita por provocação da ganância imperial napoleónica quando esta decidiu virar a mira das suas cobiças territoriais para o velho continente. Na altura era impensável que uma potência marítima como o Reino Unido deixasse o equilíbrio de poderes europeu ser corrompido e quando os franceses decidiram invadir territórios alheios com a desculpa de espalhar os seus valores revolucionários de “liberdade, igualdade, fraternidade”, a Inglaterra respondeu à altura. A vitória dos anglo-saxónicos nas batalhas de Trafalgar e de Waterloo ficaram para sempre marcadas no imaginário inglês. Foi a vez da Inglaterra criar o mito da gloriosa nação à custa dos franceses. A Trafalgar Square e a estátua do Admiral Horatio Nelson foram construídas em pleno centro de Londres para lembrar os ingleses de que são uma nação de valentes e de que os franceses não são de confiança, pois as suas manias de grandeza quase afundaram a Europa no início do século dezanove. Ainda mais, durante vários anos, a ligação Eurostar Londres-Paris foi feita a partir da Waterloo Station. Mais uma vez, um doce recuerdo de que os caminhos que ligam a Inglaterra à França nunca foram traçados da forma mais pacífica.

No século vinte, as rivalidades entre as duas nações continuaram. Embora tenham lutado do mesmo lado da barricada aquando das duas guerras mundiais, assim que os acordos de paz foram assinados, a França - que a meu ver nunca recuperou da humilhação infringida pelas derrotas de Napoleão às mãos dos ingleses, nem da ocupação nazista findada graças ao socorro dos britânicos e americanos - voltou às velhas tensões diplomáticas com a sua vizinha do Canal da Mancha.

Durante a Guerra Fria, a aliança anglo-americana não foi bem vista pelos franceses, especialmente, por Charles de Gaulle que depois de apetrechar a sua França eterna com o nuclear virou “Tito do Ocidente”. Ressentido do poderio anglo-saxónico, da perda das colónias francesas e da queda da hegemonia da França nos affairs do mundo, de Gaulle não aceitou a entrada do Reino Unido na Comunidade Económica Europeia e retirou a França do alto comando da NATO, enquanto apoiou implicitamente o movimento independentista quebecois no seio do Canadá, uma ex-colónia inglesa.

Tudo razões legitimas para os britânicos não gostarem muito dos franceses, convenhamos.

Desde então, a Inglaterra tem-se assumido, com o patrocínio dos Estados Unidos, uma potência mundial, não exactamente ao mesmo nível da Rússia ou da China, sejamos francos, mas com meritória influência. Tal como a França, também a Inglaterra perdeu o seu império nos anos 50 e 60, mas foi suficientemente esperta para reformular os seus desígnios imperiais e a sua influência sobre as ex-colónias através da Commonwealth of Nations, que até hoje mantém a Rainha como a líder simbólica da organização. Por outro lado, desde que foi finalmente aceite na Comunidade Económica Europeia em 1973, que a Inglaterra tem feito muito o que lhe apetece e pouco o que convém à França. Desde Margaret Thatcher até Gordon Brown o imperativo tem sido a expansão e não o aprofundamento, este último a preferência-mor de Paris (mas já não tanto da sua gente). Ao contrário dos gauleses, o Reino Unido não faz parte da zona Euro e não se sente presa a uma política externa europeia comum quando os yankees vêm bater à porta da 10 Downing Street a pedir ajuda.

Mas apesar de tudo isso, hoje em dia, espantem-se as almas mais cépticas, os ingleses não se têm deixado afectar pelo escárnio que os políticos franceses até à pouco tempo pareciam ter pela monarquia e superioridade britânicas - a visita oficial de Carla Bruni e seu muy estimado esposo aparentemente mudaram a opinião dos comentadores mais impressionáveis deste reino. Muitos são agora os ingleses que se aventuram por terras de Asterix, comprando propriedades e iniciando uma nova vida tanto no Norte como no Sul de França. O contrário, já não se vê tanto.

Mas isso também não quer dizer que os ingleses tenham perdido o gosto pela pirraça aos franceses. Desde a boina basca no alto da cabeça, à baguete acabadinha de sair do forno, até à sovacada peluda e mal cheirosa, passando pelo José Bové, os escândalos da mistress de Mitterrand e o bem dito do acordeão, os clichés franceses estão vivos e de boa saúde em terras anglo-saxónicas. E este que vos apresento aqui abaixo é um dos muitos exemplos. Catherine Tate e o seu supé-popular, Face bovvered? Am I bovvered? Does my face look bovvered? I AIN’T BOVVERED!, é aqui muito bem impressionado em versão au français. Ora vão lá ver.


▒ Are You Having a Laugh?

Wednesday, 30 July, 2008

No mundo do sketch da Brit Com, impera uma diva para sempre santificada pela Little Britain. Vicky Pollard de seu nome, ela é uma minga obesa com tiques de bully. E os predicados não se ficam por aí. Senhora e mestre de um dialecto imperceptível metralhado à velocidade do perdigoto mortífero - dez pontos para quem entender o que a viscosa diz do princípio ao fim - ela é veterana do fumo, do binge drinking e do shop lifting, prenha em série desde os 14 anos e rebento de família disfuncional dependente do dole. Vicky Pollard é, em suma, o cliché mais abusivo que alguma vez vi na BBC, mas por ser well funny, vale uma menção honrosa nesta rubrica semanal.

Matt Lucas é, por sua vez, o génio que dá corpo e peruca à menina Vicky e às frases mais memoráveis dos tempos que correm, Yeah but, no but, yeah but, no but, yeah but, no but, Or something or nothing!, Don’t gimme the evils!, They get beatings!

No video que se segue, podemos ver Mister Lucas e o seu companheiro de risota, David Walliams, em acção nos lugares onde esperariamos encontrar a Vicky - na sala de aula, na piscina, no pabe e no tribunal. Esta compilação de Melhores Momentos Vicky é um verdadeiro achado do You Tube e a legendagem em espanhol que a acompanha (o melhor que se pode arranjar) ajudará os menos letrados em estate slang a entender o humor da coisa.

Enjoy!


Para os fãs da Vicky, há mais aqui.

Trivia: Matt Lucas é na vida real absolutamente depenado de cabelo e sobrancelhas - diz ele ter perdido o seu lindo pêlo quando era criança depois de ter apanhado um susto de morte no Algarve onde costumava passar férias com os pais. Em 2006, David Walliams atravessou a nado o Canal da Mancha. A proeza demorou 10 horas e 34 minutos a concretizar.


▒ Are You Having a Laugh?

Monday, 21 July, 2008

O Reino Unido não é tão unido quanto isso. Na verdade, é um autêntico mish mash de culturas, línguas e nações sem Estado, de vontades separatistas e outras integralistas, de séculos de guerras de unificação e várias décadas de terror republicano.

É um Reino partido em quatro fatias que toca sob a batuta dos ingleses, pensem o que os parlamentos da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte pensarem, pois se a Inglaterra continua a não ter um parlamento regional (a velha West Lothian Question), é porque os próprios ingleses têm medo de perturbar o delicado equilíbrio político que os permite monopolizar desde há muito tempo o destino destas ilhas. Perante esta palpável divisão, os britânicos (ou melhor dizendo, os ingleses) criaram hábitos, iguarias e traços comuns que foram elevados a cultura nacional na tentativa de minimizar conflitos internos, dando a crer que os britânicos fazem todos parte da mesma nação. Ele é o fish and chips e a shepherd’s pie, os encarnadinhos marcos do correio e cabines telefónicas, os double deckers e os black cabs, a Union Jack e a família real, a tusa das corridas de cavalo, as apostas, os pabes, o chá e o humor britânico.

E era aqui que eu queria chegar. Se há coisa que me faz arquear os dedinhos dos pés de contentamento é passar um serão à frente da televisão a ver o Peter Kay, o Peep Show e o Little Britain e, uma vez por outra, ir ao Hammersmith Apollo assistir aos shows do Ricky Gervais e do Alan Carr.

O humor britânico é inigualável e único, particularmente brilhante e self-effacing. É a cola que une este Reino na sua distinta capacidade de fazer pirraça de si próprio, de criticar o fait-divers, as rivalidades regionais, as tensões étnicas e as discrepâncias sociais sem necessariamente cair na ofensa barata ou no paternalismo discriminatório. É um humor inteligente, bem-disposto e com um profundo sentido da História, próprio de um povo que participou activamente nos eventos políticos mais significativos que mudaram a Europa desde o Iluminismo.

Por isto, e acima de tudo, por eu ser fanzássa númera una do humor britânico, aqui declaro inaugurada a rubrica semanal, Are You Having a Laugh?, onde o melhor que se faz neste reino róial será gabado ad nauseum.

E agora se me permitem cá vai o primeiro vidjio, este do meu comediante favorito, Eddie Izzard, que aqui nos fala da Segunda Guerra Mundial, tema de eleição do horário nobre das estações de televisão, e, principalmente, da saudosista BBC, que todos os meses insiste em passar um fartanço de documentários sobre Hitlers, Churchills, Finest Hours, French collaborators, Normandias e outras pachachíces que tais, convencida de que ainda hoje os alemães são nossos inimigos e os franceses não são de confiança.

Ladies and gentlemen, I give you Eddie Izzard: