La Boda de Vanguardia

A tradição já não é o que era. De regresso da Andaluzia - terra de touros e gente simpática, tapas e muito jamón, feria e procissões a passar debaixo da janela do hotel às onze da noite - vim a picar o cérebro atrás do volante por mais de 600 quilómetros a pensar no que raio aconteceu ao romance, ao sacrilégio da comunhão comum, ao ritual da boda como a conhecemos.

Talvez por ter a mania que sou Cinderela e acreditar em happy endings que começam com uma requintada festa no dia do casamento, tenho imaginada para mim uma boda tradicional - mas não religiosa - na qual o costume reinará. Sei que muito dificilmente me irei casar em Portugal, por isso, vejo-me antes a atar o nó nos lindos jardins dum castelo campesino em Inglaterra, alugado para o efeito, cercada da família e dos moquecos mais próximos, vestida a preceito e com um belo dum ramalhete debaixo do braço. Durante a cerimónia, antecipo discursos, troca de alianças, um beijo apaixonado e um apalpão no rabiosque antes de seguir para dentro do castelo onde o copo d’água durará até as wee wee horas da matina, rematado com o cortar do bolo, símbolo da nova era que se inícia. No dia seguinte, como manda a tradição, irei de lua-de-mel com o meu amor, muito enamorada e agarradinha a ele, piamente crédula que os melhores anos da minha vida ainda estão para vir.

Perante esta imagem corriqueira e nada extraordinária que tenho do dia do casamento, imaginem a minha estupefacção quando me dei conta que os meus moquecos estão muito à frente dos tempos, verdadeiros campeões das bodas pós-modernistas. Por outras palavras, o Juan e a Miranda simplesmente depenaram o dia da festa de todo o seu simbolismo, reduziram a boda a um episódio do friends reunited e ainda assim arrancaram dos seus convidados os elogios mais rasgados que se pode imaginar, Best wedding ever!, gritavam uns, Una boda genial!, gritavam outros.

O casamento, realmente, foi muito agradável, tenho de dizer, Um verdadeiro encanto!, exclamou mesmo a Mommy que caiu de amores pelos meus moquecos e se tornou na groupie preferida do Juan. A cerimónia civil foi feita entre as muralhas dum castelo mouro e o copo d’água numa adega imensa para onde os convidados foram transportados via comboio recreativo. Durante a refeição, a Mommy lá ficou sentada ao meu lado na mesa dos singletons. A comida estava uma delícia e a bebida ainda melhor. O baile começou temprano e eu não tardei em saltar para a pista com os moquecos atrás. Fartei-me de dançar o flamenco, rir-me com as esposas e namoradas dos meus homens trintões e beber, beber muito. No meio de tanta gente acuplada, a solteírisse até nem me incomodou, porque com a Mommy ali ao lado, senti-me sempre muito bem acompanhada.

Mas, ainda assim, devo de dizer, achei o casamento demasiado avançado para mim. Em primeiro lugar, a noiva não levou bouquet de flores para o altar, por isso, no final do dia, não houve lançamento de bouquet para ninguém. Em segundo lugar, o bolo de casamento estava AWOL. Ou seja, não houve bolo de casamento no copo d’água e, por conseguinte, ninguém comeu uma fatiota de massa açucarada. Em terceiro lugar, os noivos não quiseram gastar dinheiro com um fotógrafo profissional, então não houve fotos profissionais de recuerdo para os convidados comprarem e a única foto que eu e a Mommy conseguimos sacar junto deles teve de ser partilhada com o resto das pessoas sentadas na nossa mesa, porque com mais de trezentos convidados, dava mais jeito aos noivos tirarem fotos em grupo. Em quarto lugar, o noivo não quis ir de lua-de-mel com a sua noiva, porque disse preferir ficar na Andaluzia depois do casamento. Uma vez que os seus amigos vinham dos quatro cantos da Europa para testemunhar o evento, ele achava melhor fazer as honras da casa e passar os primeiros dias pós-casado com os seus companheiros. Por isso, não ia haver love sweet love numas praias brancas quaisquer para mais tarde recordar. Em quinto e último lugar, o noivo não gosta de usar anéis nos dedos e, como tal, no final da cerimónia, não houve troca de alianças. Os noivos saíram do registo civil tal como entraram, ou seja, com o dedo anelar ao relento e é assim que se irão manter para o resto das suas vidas de casado.

Bom. Se este não é o casamento mais progressista em que alguma vez estive, então não sei o que é. Só sei que não tenho pedalada para estas novas modas que parecem deixar toda a gente histérica de contente, menos a mim. Meus lindos, pensem lá comigo, se não era para pôr anel no dedo nem ir de lua-de-mel, então para quê casarem? Se não tinham dinheiro para o fotógrafo, para o bolo, nem para as flores, então para quê convidarem mais de trezentas pessoas para o copo d’água? Se o objectivo era fazer uma festa para os amigos e não uma comemoração do compromisso eterno do casal, o verdadeiro centro de qualquer casamento, então para quê uma boda?

A Mommy diz que, apesar de tudo, a festa foi muito bonita e o importante é que o noivo e a noiva se divertiram ainda que à sua maneira. Cada casal é como cada qual e eles têm mais é que fazer o que lhes parece bem. Pois. Concordo. Mas a que preço, pergunto eu? Certamente, não à custa do meu conto de fadas. Homem que é meu, terá porque terá de andar devidamente anelado. Quero safari em África para a lua-de-mel, muita flor campestre no altar e um fotógrafo Hello! para relatar um dos dias mais importantes da minha vida. Quero poucos convidados para lhes dar o máximo de atenção possível e um bonito bolo com dois bonecos espetados no topo. E se puder ser, quero ainda uma carruagem puxada por dois cavalos brancos, um noivo com chapéu alto, uma orquestra de cordas e uma lagosta no prato. E viva a tradição, caramba.

*****

Post Scriptum: A bem da verdade, convém aqui deixar registado que doze horas depois de ter escrito este texto, revi as fotos da boda andaluza e realmente a noiva ia de bouquet nas mãos. Mas como a coisa era tão pirolita e como nunca a vi ser jogada ao ar, assumi simplesmente que não existisse.



6 Comentários a “La Boda de Vanguardia”

  1. angela disse:

    Tu não leves a mal, querida moqueca, mas gostei muito desse progresso andaluz.
    Mas muito mais ainda de ler este post. :D


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  2. Benjamim disse:

    “e um fotógrafo” :-)
    Por experiência a tradição faz falta.


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  3. Mariarabodesaia disse:

    O casamento mais estranho que me contaram foi quando o noivo nao beijou a noiva no final do casamento!
    isso foi insólito!
    E sim,eu estou contigo com esse casamento bem tradicional! venham eles


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  4. Si disse:

    Olá Maria Lua!
    No ano passado fui a fotógrafa “oficial” no casamento de uma amiga. Ela, apesar de ter tido um casamento muito tradicional, nao quis fotógrafo profissional porque odeia a ideia de ter um tipo a dizer-lhe “incline a cabeca para a esquerda um pouco; agora a mao no peito; e agora assim; e agora assado, etc”. :)
    Eu tirei a maioria das fotos ao meu gosto e jeito, mas também o fiz ao jeito de alguns convidados que queriam fotos com os noivos. Assim agradou-se a gregos e a troianos. :)
    bjnhs [Também já estou de volta `a nossa England!]


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  5. Maria Inês disse:

    Dra. ai, Maria Lua, aguardo novo post. Grata pela atenção.
    beijo


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  6. Icon disse:

    Eu sou mais adepto do boda nenhuma… Como tal, para mim, qq coisa que uma eventual patroa queira, deverá servir… Ainda assim, reservo-me o direito de veto! Não vá haver alguma ideia demasiado rocambolesca!

    Há, no entanto, uma coisa que a mim me faz confusão. A anilha!!!! Não gosto de coisas cá nos dedos… Só mesmo se fosse condição sine qua non é que me poderiam convencer a andar com uma coisa dessas…


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