A Praga dos Doutores

Portugal virou país de Doutores. Para aonde quer que me vire, é tudo Doutor com exigências de tratamento obsequioso. Não importa o curso de licenciatura que se tire, desde o Assistente Social até ao Informático, passando pelo Sociólogo e o Farmacêutico, todos intitulam-se de Senhores Doutores e o povo submete-se à subserviência que tal título infere como se os portugueses vivessem numa sociedade de castas, dividida entre os sacerdotes universitários e os intocáveis ignorantes.

Mas desde quando é que aos olhos da lei, os licenciados são doutores, pergunto-me eu? Doutores são os médicos e os doutorados. Em Inglaterra, nem sequer os advogados e dentistas são chamados de tal título e, se formos ver bem, também a lei aqui (se não estou enganada) não obriga a tal coisa. Então para quê perpetuar um costume terceiro-mundista que nos divide indiscriminadamente como sociedade e existe na pretensão de que quem frequentou a faculdade durante quatro anos é gentinha de status? Pois não se soou, resistiu e lutou tanto para que em 1976 pudessemos todos ser tratados de forma igual, imparcial e justa perante a lei portuguesa? Então qual o objectivo de prolongar esta desigualdade social só para uns poderem se engrandecer à custa dos outros?

Embora eu seja licenciada, pós-graduada e mestrada, eu não sou doutora, nem nunca me intitulei de tal coisa, pois Doutor, para mim, é uma palavra sagrada que envolve muita responsabilidade social, sendo apenas atribuida áqueles que estão devidamente habilitados a salvar vidas - os verdadeiros “sacerdotes” - ou aos que se tornaram especialistas supremos de uma determinada temática. Nas salas de aula londrinas, ninguém me trata por Miss ou Teacher, muito menos por Doctor ou Professor, cruz credo. Sou apenas Maria Lua para os meus meninos vintistas porque é assim que o exijo e, felizmente, é assim que o sistema britânico funciona. Doctor é o doutorado, e Professor é o catedrático e nem esses são tratados por tal formalidade pelos seus estudantes. Antes, esquivam-se a rótulos diferenciados e encorajam os pupilos a chamarem-nos pelo primeiro nome, porque na academia não pode haver cerimónias se o conhecimento tem de fluir sem preconceitos nem intimidações.

Assim, o supervisor da minha tese é apenas o Jonathan, embora seja Doctor e um dos maiores especialistas mundias da minha área de especialidade. O conselheiro da minha tese é o Justin, embora seja Professor e com publicações referenciadas nos cinco continentes. Já frequentei os pabes com o Jonathan e, de vez em quando, tomo conta da adorável filhota do Justin. A nossa informalidade não coloca em causa o respeito imenso que tenho pelos dois, muito pelo contrário. É na humildade com que eles se entregam ao profissional que recebem toda a minha admiração.

Então, minha gente, pergunto-vos eu - para quê a pachachíce do Senhor Doutor? Se a lei não vos obriga a chamar os Lics de Doutores, então para quê sujeitarem-se a tanta falsa pomposidade só para mimarem complexos de superioridade de gente com tiques de grandeza? O tratamento educado perante o desconhecido ou o superior - se o mesmo não for representante do Estado ou do regime, atenção, a quem se deve muita vénia, mais pelas instituições que representa do que pela pessoa que é - deverá ser suave e cordial q.b. - ou seja, Senhor(a) Apelido. E, chega.



12 Comentários a “A Praga dos Doutores”

  1. Icon disse:

    Lá está, eu acho que já estou na fase a seguir…
    Dr. Y é qualquer um… mas para se chegar a Senhor já é preciso muito!!!! já está quase invertido!! :)


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  2. Sandra disse:

    Olá!,

    Tens toda a razão Maria Lua, é um costume terceiro mundista.

    Eu estou sempre a corrigir as pessoas que insistem em tratar-me por Dra. e a cortar titulos nos impressos. Há pergunta é Dra. ou Engenheira (lá está, neste pais só podemos optar por um dos dois) respondo que sou apenas Sandra M.

    Enfim, manias!


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  3. Leo disse:

    Tens tanta razão Maria Lua… Este país ainda tem de crescer muito para perceber que os títulos nada significam e que devemos ser humildes o suficiente para não termos problemas em sermos tratados pelo nosso nome próprio. Não é isso que coloca em causa o nosso profissionalismo. Num país onde só há 2 ou 3 décadas o ensino superior começou a ser financeiramente mais acessível a todos, ainda se pensa que quem tem um canudo é doutor… doutor da mula ruça, como dizia a minha avó!


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  4. Benjamim disse:

    Gostava de não me repetir mas é inevitável.
    Tens estado fora tempo de mais.
    A aplicação da lei idiocrática, é um projecto com início na mesma altura em que as televisões independentes entraram nas nossas casas.
    Hoje em dia qualquer criança com 10 anos sabe decore os vários decretos que esta lei obriga, e no caso dos adultos com mais dificuldade de assimilar o problema fica resolvido com doses maciças de telenovelas.
    Por isso Dr. Maria Lua este post é um merda incompreensível quando escrito em Português.


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  5. De casa disse:

    Não é de agora, não senhora. Já há alguns anos que isso se passa!
    Estou com o Icon, doutor qualquer um é, já Senhor…
    Welcome back! Já te conhecia do outro blog e fiquei muito contente quando descobri que estavas de volta.


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  6. Maria Inês disse:

    Concordo inteiramente Dra. Maria Lua, perdão Maria Lua:) Juro que sim!


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  7. Milene disse:

    Eu faco-me a mesmo pergunta ha ja bastante tempo!!!! =)


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  8. Mariarabodesaia disse:

    Eu concordo plenamente contigo. O pior é que há quem não pense o mesmo. Custa-me a serio.. tratar gente por senhor doutor quando sei que nem o 12 tem e me virem cá tratar por tu… ou pelo meu nome, quando não os conheço de lado nenhum, nem os vi mais gordos..
    Por isso um e-mail que me venha com o SR. Doutor isto ou aquilo e que assinam ( DR. qualquer porcaria) dá-me vontade de os mandar com DRA. Maria João.
    Já que as regras não são iguais para todos… tenho que ser parva tb.


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  9. Rachel disse:

    O grande problema subsiste. E na minha humilde opinião, não é o de chamar DR a torto e a direito!
    O grande problema é que a maioria dos jovens adultos de hoje, tomaram chá de garfo.
    Falta-lhes a educação e bom trato de antigamente.
    E infelizmente, enquanto andam para aí a exigir que lhes ponham o Dr nos cartões de crédito e débito, esquecem-se de ensinar ás criancinhas que não se tratam os adultos por Tu, nem por “bocê”, nem por “olhe”.
    E que os mais velhos têm de ser respeitados, e que não se entra em lado nenhum sem pedir licença ou sem bater à porta.
    Mais, também se esquecem de ensinar ás criancinhas como se come direito à mesa e como se comportar em restaurantes e outos lugares publicos.
    No fundo esquecem-se de ensinar ás criancinhas, que isto não é tudo delas… (suspiro)


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  10. Sara Croft disse:

    Para quando? Somos demasiado pobres, nao temos dinheiro. Como tal, o dinheiro, ou a aparencia de se ter dinheiro é importante. Eu acho a actual cultura em Portugal pimpa, saloia, tacanha e era incapaz de viver lá outra vez.
    No entanto, Maria Lua, cara, aqui isso também existe, aliás existe em todo o lado, só que com critérios diferentes. Por estas bandas nao dizemos que somos doutores, mas dizemos o código postal com gusto, o jornal que lemos, divulgamos a profissao com deleite, os sítios onde viajamos e os restaurantes/ bares que frequentamos. Eu sou a mesma trolaró de classe média portuguesa que sempre fui, mas vejo a diferenca que faz hoje em dia quando digo o que faco, a companhia em que trabalho, o meu código postal.
    E também já trabalhei numa das faculdades pertencentes ao mesmo chapéu que o seu colégio do roi, lia o THES e lidava com a classe académica que por lá andava. E podem nao se tratar por doutores, mas nao é por isso que deixam de ser elitistas e pedantes, principalmente com os colegas mais novos e/ou estrangeiros. Se nao tem essa experiencia, ainda bem para si.
    Enfim, somos todos de aparencias, a diferenca é que em Portugal nao somos nada, nada temos e teimamos em ignorar o facto, enquanto que por aqui e noutros países verdadeiramente civilizados, a classe média é de facto classe média, nao precisa de o fazer parecer. Sao e pronto.Ainda hoje ouvi o Cliff Richard dizer sobre Potugal que é um país de terceiro mundo with all the modern cons. Se bem que o senhor em causa seja alvo de chacota britanica, pensei eu que nao anda muito longe da realidade.
    A tristeza maior é que nao vejo Portugal a melhorar, apenas regredir. A ironia transparece em alguns dos comentários que por aqui andam, toda a gente se insurge com o uso de doutor para cá e engenheiro para lá e no entanto rispostam na mesma moeda. Pergunto-me, a mudanca passa por cada um de nós? Ou na impossibilidade de lidarmos com estas tacanhices simplesmente encolhemos os ombros e nao olhamos para trás?


    Visitar Sara Croft
  11. Sara Croft disse:

    Para quando? Somos demasiado pobres, nao temos dinheiro. Como tal, o dinheiro, ou a aparencia de se ter dinheiro é importante. Eu acho a actual cultura em Portugal pimpa, saloia, tacanha e era incapaz de viver lá outra vez.

    No entanto, Maria Lua, cara, aqui isso também existe, aliás existe em todo o lado, só que com critérios diferentes. Por estas bandas nao dizemos que somos doutores, mas dizemos o código postal com gusto, o jornal que lemos, divulgamos a profissao com deleite, os sítios onde viajamos e os restaurantes/ bares que frequentamos. Eu sou a mesma trolaró de classe média portuguesa que sempre fui, mas vejo a diferenca que faz hoje em dia quando digo o que faco, a companhia em que trabalho, o meu código postal.

    E também já trabalhei numa das faculdades pertencentes ao mesmo chapéu que o seu colégio do roi, lia o THES e lidava com a classe académica que por lá andava. E podem nao se tratar por doutores, mas nao é por isso que deixam de ser elitistas e pedantes, principalmente com os colegas mais novos e/ou estrangeiros. Se nao tem essa experiencia, ainda bem para si.

    Enfim, somos todos de aparencias, a diferenca é que em Portugal nao somos nada, nada temos e teimamos em ignorar o facto, enquanto que por aqui e noutros países verdadeiramente civilizados, a classe média é de facto classe média, nao precisa de o fazer parecer. Sao e pronto.Ainda hoje ouvi o Cliff Richard dizer sobre Potugal que é um país de terceiro mundo with all the modern cons. Se bem que o senhor em causa seja alvo de chacota britanica, pensei eu que nao anda muito longe da realidade.

    A tristeza maior é que nao vejo Portugal a melhorar, apenas regredir. A ironia transparece em alguns dos comentários que por aqui andam, toda a gente se insurge com o uso de doutor para cá e engenheiro para lá e no entanto rispostam na mesma moeda. Pergunto-me, a mudanca passa por cada um de nós? Ou na impossibilidade de lidarmos com estas tacanhices simplesmente encolhemos os ombros e nao olhamos para trás?


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  12. Tigas disse:

    Como Luso-Espanhol não posso estar mais de acordo contigo, MM. E como pessoa, não posso estar mais de acordo contigo, MM. E como algu´rm que abomina cócós e cácás, não posso estar mais de acordo contigo, MM. E…


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