
Da mesma forma que Portugal anda a perguntar como é possível só se ter ganho até agora uma única medalha de prata nos jogos olímpicos de Pequim, o reino róial tem perguntado o mesmo mas ao inverso, ou seja, como é possível que se tenham recolhido mais medalhas nesta olímpiada do que em qualquer outra desde 1908 (as we speak, 16 de ouro, 10 de prata e 10 de bronze).
As respostas, no meu entender, são deveras simples. Enquanto os apoiantes da Team GB fizeram uma restrospectiva da sua história desportiva, descobrindo o mistério da sua actual prestação maravilha nas políticas financeiras do já esquecido Primeiro Ministro tory, Sir John Major, que em 1994 decidiu investir uma boa percentagem da lotaria nacional nos clubes desportivos da nação, em Portugal, por outro lado, são os próprios políticos que atacam os desportistas desavergonhadamente, culpando os mesmos pela falta de vitórias nacionais, tratando-os de forma condescendente, “A culpa é toda vossa!”, dizem os coitados dos desportistas, ”Não, é vossa”, responde o Secretário de Estado, ”Não, é vossa que não nos dão os apoios necessários!”, “Não, já vos disse, a culpa é vossa e, assim como assim, como podem vocês saber de quem a culpa é, se com tanto músculo agarrado ao osso mal vos sobra espaço para um cerébro, seus brutos irracionais?”, pergunta o Secretário de Estado socialista com uma petulância que me faz lembrar a obtusidade de outros tempos salazares:
Foi já pela madrugada em Pequim (17h00 em Lisboa) que o Governo, através do secretário de Estado da Juventude e do Desporto, Laurentino Dias, reagiu aos maus resultados dos atletas portugueses. Criticou algumas das suas declarações e lembrou-lhes que “aos Jogos Olímpicos não se vem apenas participar, mas para competir a sério, obter resultados, porque esta é a competição mais séria e exigente do mundo”. Laurentino Dias disse ainda que os atletas estão em Pequim “para competir desportivamente, não para prestar declarações. Eles são melhores a fazer desporto do que a prestar declarações”.
In “Laurentino Dias Lembra aos Atletas que Devem Competir a Sério”, O Público, 20 de Agosto de 2008.
Bom. Mas, independentemente de quem seja a culpa, questiona Victor Ferreira, jornalista do Público, como é possível que Portugal tenha investido mais tempo e dinheiro nas olimpíadas de Pequim do que de Atenas, aumentando o seu investimento nos desportistas nacionais em dois milhões de euros, e ainda assim os resultados estejam a ser flagrantemente mais fracos do que há quatro anos atrás?
Meus queridos, meus queridos, calma, muita calma.
Não há razão para entrar em pânico, nem para ver nas fraquezas físicas dos nossos Sebastiões Coq Sportif motivos de decadência nacional. Nós somos o que somos no grande plano da ordem internacional - pequenos, fracos, irrelevantes, descartáveis e insignificantes - e não são umas derrotas no estádio que nos vão tornar ainda mais pequenos, fracos, irrelevantes, descartáveis e insignificates aos olhos do mundo.
Mas, dito isso, ao contrário de muita nação sem poderio militar e económico, nós temos uma grandiosidade interior que nos coloca à parte das outras, uma história de impérios (mesmo se de papel) que nos enche o ego nacionalista e os livros das nossas crianças com estórias de conquista, e uma longevidade estado-territorial inigualável. Por isso, vamos ter muita calma, que não é Pequim que nos tirará a tusa portuguesa nem nos destinará à extinção. E, a propósito disso, vejam o exemplo do reino róial. Quando este foi eliminado do Euro 2008, ainda antes do campeonato começar, ninguém ameaçou atirar-se do Big Ben a baixo. Simplesmente, fingiu-se que o campeonato nunca aconteceu e a vida continuou para a frente.
Para além disso, como eu disse acima, Sir John Major é tido como o herói destas olimpíadas, mas em Atlanta, dois anos depois de ter decidido investir parte dos ganhos da lotaria nacional nos clubes desportivos, a Team GB só trouxe para casa uma (unzinha) medalha de ouro.
Investimentos financeiros no desporto, portanto, parecem só ter resultados a longo prazo. Os dois milhões adicionais que foram investidos no desporto em Portugal nos últimos quatro anos, se calhar, não são suficientes e quando o forem, se calhar, só se traduzirão em medalhas uma década e meia depois.
Por isso, calma, minha gente, muita calma que ainda temos umas coisinhas a aprender com os britânicos e toda uma eternidade pela frente.
rita maria disse:
Inteiramente de acordo! (isto é, tirando aquela parte da tusa nacional aliada ao território. Enfim, os Descobrimentos, vá. Mas também só lhes perdi o pó depois de me mudar para o estrangeiro)
Wed, 20 August 2008, 14:19Visitar rita maria
Pecola disse:
Também concordo. Enfim, são os nervos à flor da pele, um euro 2008 que também soube a pouco, agora isto.. Umas mal-medidas infantilidades verbalizadas e pronto: está pronto o rastilho.
Wed, 20 August 2008, 16:31Visitar Pecola