Armchair Traveller

Desde ontem e por mais três noites, a BBC1 irá passar o documentário The Man Who Cycled the World, as aventuras de Mark Beaumont, um escocês que se fez ao mundo em bicicleta com o objectivo de quebrar o Guiness World Record, percorrendo quatro continentes e 18 mil milhas em menos de sete meses.

Nos dias que correm, devo de dizer, ando muito carente de aventura e adrenalina e, por isso, este documentário caiu nas tv listings como uma ginjinha. Desde que vi o Long Way Round na BBC2, que a minha vontade de ir à descoberta de outros mundos e de ver in loco as pessoas e os lugares de que leio em primeira mão nos jornais diários cresceu exponencialmente. Começo a fartar-me da minha visão unidimensional, limitada à tela da televisão e à folha do periódico, e dou por mim a sentir esta comichão no fundo do estômago que me leva a sonhar com as maravilhas de continentes encantados - empestados de sida, pobreza, fome e governos autoritários, verdade seja dita - mas cheios de excentricidades e sensações exóticas a absorver.

É a primeira vez que sinto esta wanderlust. Para ser franca, sempre fui muito elitista na escolha de destinos de férias e, tirando o Brasil, o Peru e o Marrocos, eu nunca gostei de me fazer ao subdesenvolvido e ao pestilento. Moqueca das Europas e da América do Norte, raramente pisei o solo de um país que tivesse um Produto Nacional Bruto mais baixo do que o das Ibérias. Desde pequena que oiço a Mommy dizer que se é para sairmos do aconchego da nossa casa, então o melhor é irmos para um sítio que tenha, pelo menos, o mesmo conforto. E eu concordo com ela, pois nesta vida podem tirar-me tudo, mas não me tirem a Mommy e o meu conforto que sem os dois eu não fui geneticamente fabricada para sobreviver.

Mas, agora, o mundo apresenta-se-me com outras cores, com outras atracções, com outros afectos humanos. Richard Dawkins, no seu documentário da Channel 4, The Genius of Charles Darwin, disse uma coisa fantástica, não exactamente por estas palavras, mas com o mesmo sentido - por mais que eu admire as descobertas de Darwin uma pergunta ele ignorou fazer quando pensou a Teoria da Evolução: se as espécies estão geneticamente predispostas a lutarem pela sua sobrevivência e, dependendo do seu sucesso, ora evoluiem ou extinguem-se, então como é possível explicar coisas tão “contraprodutivas” como a generosidade e a ajuda ao próximo?

Nas suas aventuras de Londres a Nova Iorque via Sibéria e de John O’Groats (Escócia) a Cape Town (África do Sul), Ewan McGregor e Charlie Boorman comprovaram isso mesmo. Por onde quer que passassem, montados nas suas lindérrimas BMWs, quer fosse pelo Cazaquistão, Mongólia, Botswana, Líbia ou Etiópia, as pessoas paravam na estrada para os saudarem, ajudavam-os a atravessarem rios e estradas de lama, soldavam-lhes os chassis e ofereciam-lhes comida e abrigo. Quanto menos elas tinham, mais elas lhes davam e, isso, não é uma fraqueza biológica, é uma qualidade divinal que perpetua a minha fé na evolução do Homem, mais do que em deus.

E assim ando eu a perder a oportunidade de testemunhar essa generosidade humana fora da minha zona de conforto, e a pensar como seria scrumptious fazer uma viagem de meses pelas Ásias, Américas e Áfricas, posta a cavalo num potente motor, qual amazona do cabedal, acompanhada por alguém que me enchesse os olhos de sorrisos e o coração de ganas pelo desconhecido, como o McGregor e o Boorman.

Mas como não tenho mota, nem companhia, nem tempo, nem recursos, nem loucura suficiente para largar o quotidiano, viajo antes pela mente com a ajuda da minha fecunda imaginação. Na estante, tenho tudo o que preciso - Long Way Round, Long Way Down, Race to Dakar, Jupiter’s Travels e The Motorcycle Diaries - o meu fix literário que oxalá me dure até ao Natal. E, depois, logo veremos.



4 Comentários a “Armchair Traveller”

  1. Benjamim disse:

    Não é uma aventura certamente, mas pode ser que ajude: http://www.photoshopuser.com/photowalk/


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  2. Sara Croft disse:

    Para ser franca, sempre fui muito elitista na escolha de destinos de férias e, tirando o Brasil, o Peru e o Marrocos, eu nunca gostei de me fazer ao subdesenvolvido e ao pestilento. Moqueca das Europas e da América do Norte, raramente pisei o solo de um país que tivesse um Produto Nacional Bruto mais baixo do que o das Ibérias.

    Pois que o subdesenvolvido e pestilento nao tem História nem pessoas, só tem pulgas e doencas? Eu compreendo, valham-nos deus, a nossasenhoradefátima e a rainha Victoria pela superioridade europeia/ cáucasa, antes da Europa existir como a conhecemos, o mundo estava repleto de sel-va-gens!


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  3. Maria Lua disse:

    Minha querida, as conclusões são suas, não minhas. Agradecia era que da próxima vez, lê-se melhor a coisa antes de fazer extrapolações burlescas, exageradas e ofensivas de pedaços de texto tirados fora de contexto com o objectivo de ditar sentenças moralistas altamente disparatadas quando o propósito da peça foi uma reflexão sobre a abertura de horizontes, não o seu cerco.

    Vá. E agora mande lá o seu email verdadeiro que eu gostaria de a conhecer um pouco melhor. Já reparei que também vive em Londres.

    Beijinho grande,
    Maria Lua


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  4. Sara Croft disse:

    Oh Maria Lua, a menina é um fartote de se ler, mas nao pode dizer que nao se presta a isso. O seu blog inteiro está pautado de exemplos que confirmam a minha observacao, eu apenas apontei um. Pode-me acusar de falta de cha, de insolencia e atrevo-me a admitir de ma-educacao - de facto, eu nao sou apologista de de ir a casa de alguém para se ser desagradavel, como é o caso de um blog - mas nao pode acusar-me de extrapolacoes burlescas, nao com comentários como este.


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Ora, diga lá de sua justiça

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