August 2008



Iberia, Here I Come

Sunday, 31 August, 2008

Ibéria, minha princesa, põe-te linda e vistosa, abre os teus céus azuis-violeta e os risos da tua gente, porque daqui vou eu amanhã cedinho nas asas da tua TAP, desejosa de te abraçar e perder-me no teu aconchego familiar. Estás a ver, amor dos meus amores, que eu até nem sou filha tão desnaturada, pois para compensar a minha ausência durante os teus mais recentes verões incendiários, tirei doze dias só para estar contigo neste último mês do Estio. Sou uma grande valente, tens de admitir, pois sabes muito bem como o calor que emana do teu chão e o ar escaldante que sopras me levam à loucura. Quatro dias por cada visita veraneia que falhei nos últimos três anos e para estrear todo o chiquérrimo guarda-fato de verão que tenho acumulado entretanto, mas raramente usado nesta cidade polar, e a mais não sou obrigada.

Bom. Trata lá de dizer à Mommy para não se esquecer de me ir buscar ao aeroporto de Lisboa. Eu sei que a Mommy nunca falha as esperas, mas tu deves ter-te apercebido como ultimamente ela tem trabalhado tanto, pobrecita minha, a salvar vidas e a aliviar o sofrimento dos mais enfermos qual Madre Teresa dos hospitais públicos, que fico com receio que a rainha me adormeça e se olvide que tem uma filha amada para ir recolher.

Vê lá se também super-botóxas a Terra do Mar em antecipação da minha chegada que eu estou a pensar passar dias a fio espreguiçada no condomínio de praia da Mommy, virada para o Atlântico com o lapetopas no colo a trabalhar no livro, embalada pelo barulho doce da criançada a chapinhar na piscina adjacente. Principalmente, preciso que me assegures que a Terra do Mar porá boa cara para receber o Johnny quando ele me vier visitar por um par de dias. Tu sabes como ele adora desfilar a beer gut quarentona pelo court de ténis e certamente irá desafiar-me a um par de partidas só para eu, mais uma vez, lhe provar que moqueca com corpo bom não tem necessariamente de ser boa com o corpo. Por isso, não mandes chuva.

Chuva, essa, podes tu deixar para o casamento do Juan na Andaluzia. Desde que ele me disse que estava a pensar sentar a Mommy na mesa dos pais da noiva e a mim na mesa dos solteiros, restos humanos sem enquadratura social e por isso relegados para o canto dos leftovers, que lhe estou com um pó que nem imaginas. Desde quando solteirísse feminina virou espécie leprosa, usada e abusada para tapar buracos em mesas de boda? Só porque a Mommy não é homem, não tenho agora direito a sentar-me ao lado dela, é? Só porque não sou mulher de ninguém, não tenho a honra de fazer parte da mesa dos meus moquecos aparelhados? Pois eu demando affirmative action para os solteiros e o fim desta abominável discriminação! Isto é racismo emocional, porra. Por cada dois casais deveria ser obrigatório sentar o mesmo número de solteiros para que todos pudessem confraternizar em doce harmonia. Mas não, como os casais não gostam de se lembrar da liberdade que perderam e os solteiros não gostam de se lembrar há quanto tempo não têm sexo on demand, o melhor é viverem todos num feliz apartheid.

Em troca disto tudo, prometo-te, Ibéria formosa, minha pátria dos hérois do mar, escrever neste diário o mais que possa e me apeteça. A Tia Ganga já me comprou o Banda Larga Móvel da Vodafone, ena, ena, o que quer dizer que vou ter internet 24/7, em casa, na esplanada, no court de ténis, na piscina, no carro novo da Mommy, a caminho da Hispânia, no restaurante e no aeroporto. Uma alegria.


Think Big

Saturday, 30 August, 2008

Se alguém perguntar porque é que eu decidi fazer carreira académica na Terra Ingla e não nas raquíticas universidades portuguesas, a reposta está em resultados como este que resumem o meu descontentamento face ao sistema educativo superior das ibérias ocidentais:

Universidade do Porto sobe 84 posições no ranking mundial de produção científica

Vice-reitor satisfeito por UP se situar na 375.ª posição no “top 500″ da ciência mundial… A UP é, aliás, a única universidade portuguesa presente neste ranking, onde são analisadas cerca de 17 mil universidades de todo o mundo. 

(In O Público, 30 de Agosto de 2008)

Palmadinhas nas costas do senhor reitor pelo notável esforço, mas o resultado, infelizmente, continua a ser horrores de medíocre. Quando é que os governos de Lisboa vão perceber que sem um justo investimento na educação portuguesa, sem uma destemida cobrança de propinas consoante o rendimento de cada um, sem a construção de laboratórios e bibliotecas científicas de jeito e sem a abertura de mais centros de investigação com apoios do Estado, mas principalmente do privado, o nosso património intelectulóide está destinado ao exílio e as faculdades portuguesas ao ridículo “400 Overall Rankings” do Times Higher Education?

Para quem ambiciona saber um pouco mais do que a licenciatura tem para oferecer, trocar ideias com os “topos de gama” da sua área, ter verdadeiras condições e incentivos para investigar o que lhe acossa a alma, então não há outra alternativa senão fazer-se ao cosmopolita. E um dia, quem sabe, quando já não tiver mais nada para provar aos seus pares transnacionais, e se a pátria o quiser de volta, regressar à base para ensinar à sua gente o que aprendeu lá fora.

Mas até esse dia chegar, deixem-me andar por aqui, que enquanto eu aqui estiver, estou no topo dos tops - a faculdade em que vou começar a leccionar é a 36.ª melhor do mundo no estudo das Humanidades e a faculdade em que me mestrei, ensinei até há pouco tempo e estou agora a acabar o doutoramento é, senhoras e senhores, a 3.ª melhor do mundo no estudo das Ciências Sociais. Nestes últimos anos, tenho pago uma pilha de propinas que daria para comprar um fantástico Ferrari, verdade seja dita, mas com a ajuda de uma bolsa oferecida pela própria faculdade, as aulas que dou e, até há pouco tempo, três diferentes part-times, tenho-me mantido de pé e muy orgulhosa.

Meus lindos, se é para seguirem os seus sonhos, então que os sigam em grande. O resto, depois arranja-se.


▒ Are You Having a “Rigolé”?

Thursday, 28 August, 2008

“There’s always something fishy about the French.” Noel Coward

“If the French were really intelligent, they’d speak English.” Wilfred Sheed

“If the French noblesse had been capable of playing cricket with their peasants, their chateaux would never have been burnt.” G. M. Trevelyan

Para quem tem uma História em comum com destinos cruzados desde os tempos da invasão da Inglaterra pelos Normandos na Conquista de 1066, a Inglaterra e a França bem poderiam se desgostar menos e suportarem-se um pouco mais. Digo eu que se o relacionamento entre estas duas potências nunca foi exactamente amistoso, tal se deve ao facto de ambas serem horrores de invejosas das suas respectivas histórias, do seu poderio imperial, da influência e do domínio cultural que exerceram no mundo durante séculos a fio, e dos valores revolucionários que experimentaram em casa e exportaram além-fronteiras, inaugurando novas eras no pensamento humano e político.

Mas comecemos do início para melhor compreendermos até que ponto estas duas potências se irritam uma à outra.

Para começar, os ingleses despeitam as suas origens culturais e esnobam a língua francesa com uma arrogância que só lhes fica mal, se tivermos em conta que depois da Conquista dos Normandos, a língua falada na corte inglesa durante a idade medieval foi exclusivamente o francês. Muitos dos costumes e da cozinha gourmet, assim como parte da monarquia, clérigo e aristocracia foram mesmo importados de França, mas god forbid um inglês se gabar de tal passado.

Por outro lado, a França construiu orgulhosamente a sua história medieval com a “ajuda” da Inglaterra. O mito da sua mártir nacional, Jeanne d’Arc, foi formulado à custa da expulsão dos ingleses do solo francês e da vitória das tropas francesas sobre as inglesas, aquando da Guerra dos Cem Anos. Desta forma, não se pode dizer que só a história medieval inglesa tenha sido influenciada pela França, também a Inglaterra influenciou a história daquela, ajudando-a, acidentalmente, na construção do discurso político que legitimaria a existência da nação francesa a partir da Revolução de 1789.

Chegados ao período da Reforma Protestante, depois de muito conflito interno, a Inglaterra passou a denominar-se um reino protestante e parlamentarista, enquanto a França se rendeu ao catolicismo de Luís XIV e caiu no absolutismo, marcando claramente uma separação de temperamentos políticos entre as duas potências. Ambas eventualmente fizeram-se ao mar e esculpiram impérios opulentos e invejáveis, não se coibindo de combater quando as suas ambições ultramarinas se sobrepunham.

No início do século dezanove, a Inglaterra derrotou a França nos campos de batalha europeus, desta feita por provocação da ganância imperial napoleónica quando esta decidiu virar a mira das suas cobiças territoriais para o velho continente. Na altura era impensável que uma potência marítima como o Reino Unido deixasse o equilíbrio de poderes europeu ser corrompido e quando os franceses decidiram invadir territórios alheios com a desculpa de espalhar os seus valores revolucionários de “liberdade, igualdade, fraternidade”, a Inglaterra respondeu à altura. A vitória dos anglo-saxónicos nas batalhas de Trafalgar e de Waterloo ficaram para sempre marcadas no imaginário inglês. Foi a vez da Inglaterra criar o mito da gloriosa nação à custa dos franceses. A Trafalgar Square e a estátua do Admiral Horatio Nelson foram construídas em pleno centro de Londres para lembrar os ingleses de que são uma nação de valentes e de que os franceses não são de confiança, pois as suas manias de grandeza quase afundaram a Europa no início do século dezanove. Ainda mais, durante vários anos, a ligação Eurostar Londres-Paris foi feita a partir da Waterloo Station. Mais uma vez, um doce recuerdo de que os caminhos que ligam a Inglaterra à França nunca foram traçados da forma mais pacífica.

No século vinte, as rivalidades entre as duas nações continuaram. Embora tenham lutado do mesmo lado da barricada aquando das duas guerras mundiais, assim que os acordos de paz foram assinados, a França - que a meu ver nunca recuperou da humilhação infringida pelas derrotas de Napoleão às mãos dos ingleses, nem da ocupação nazista findada graças ao socorro dos britânicos e americanos - voltou às velhas tensões diplomáticas com a sua vizinha do Canal da Mancha.

Durante a Guerra Fria, a aliança anglo-americana não foi bem vista pelos franceses, especialmente, por Charles de Gaulle que depois de apetrechar a sua França eterna com o nuclear virou “Tito do Ocidente”. Ressentido do poderio anglo-saxónico, da perda das colónias francesas e da queda da hegemonia da França nos affairs do mundo, de Gaulle não aceitou a entrada do Reino Unido na Comunidade Económica Europeia e retirou a França do alto comando da NATO, enquanto apoiou implicitamente o movimento independentista quebecois no seio do Canadá, uma ex-colónia inglesa.

Tudo razões legitimas para os britânicos não gostarem muito dos franceses, convenhamos.

Desde então, a Inglaterra tem-se assumido, com o patrocínio dos Estados Unidos, uma potência mundial, não exactamente ao mesmo nível da Rússia ou da China, sejamos francos, mas com meritória influência. Tal como a França, também a Inglaterra perdeu o seu império nos anos 50 e 60, mas foi suficientemente esperta para reformular os seus desígnios imperiais e a sua influência sobre as ex-colónias através da Commonwealth of Nations, que até hoje mantém a Rainha como a líder simbólica da organização. Por outro lado, desde que foi finalmente aceite na Comunidade Económica Europeia em 1973, que a Inglaterra tem feito muito o que lhe apetece e pouco o que convém à França. Desde Margaret Thatcher até Gordon Brown o imperativo tem sido a expansão e não o aprofundamento, este último a preferência-mor de Paris (mas já não tanto da sua gente). Ao contrário dos gauleses, o Reino Unido não faz parte da zona Euro e não se sente presa a uma política externa europeia comum quando os yankees vêm bater à porta da 10 Downing Street a pedir ajuda.

Mas apesar de tudo isso, hoje em dia, espantem-se as almas mais cépticas, os ingleses não se têm deixado afectar pelo escárnio que os políticos franceses até à pouco tempo pareciam ter pela monarquia e superioridade britânicas - a visita oficial de Carla Bruni e seu muy estimado esposo aparentemente mudaram a opinião dos comentadores mais impressionáveis deste reino. Muitos são agora os ingleses que se aventuram por terras de Asterix, comprando propriedades e iniciando uma nova vida tanto no Norte como no Sul de França. O contrário, já não se vê tanto.

Mas isso também não quer dizer que os ingleses tenham perdido o gosto pela pirraça aos franceses. Desde a boina basca no alto da cabeça, à baguete acabadinha de sair do forno, até à sovacada peluda e mal cheirosa, passando pelo José Bové, os escândalos da mistress de Mitterrand e o bem dito do acordeão, os clichés franceses estão vivos e de boa saúde em terras anglo-saxónicas. E este que vos apresento aqui abaixo é um dos muitos exemplos. Catherine Tate e o seu supé-popular, Face bovvered? Am I bovvered? Does my face look bovvered? I AIN’T BOVVERED!, é aqui muito bem impressionado em versão au français. Ora vão lá ver.


Mayor Boris Takes Over Olympic Flag

Sunday, 24 August, 2008

Depois de uma magnífica prestação nas olimpíadas de 2008, em que a Team GB enobreceu as ilhas com um total de 47 medalhas, 19 delas de ouro, dá-se início, pela terceira vez na história das olimpíadas modernas, à transladação da bandeira olímpica para Londres, onde os próximos Jogos Olímpicos terão lugar. Boris está a fervilhar de orgulho e não se deixa amedrontar pela aparente primorosa organização do Comité Chinês, prometendo antes manter os deslizes orçamentais em check e receber os atletas e os espectadores da maior competição desportiva do mundo de forma mais íntima e recatada, menos militarizada e ostensiva, portanto.

Dizem os pundits que a grande rival da London 2012, não é Beijing 2008, mas sim Sydney 2000. O que se entende bem, quando se tem em consideração a forma como estes jogos veraneios foram manchados por uma virulenta falta de liberdade de expressão e uma organização ditatorial que, entre várias gaffes circenses, trouxe abusodestruição desnecessária à vida de muitos milhões de chineses. Aos meus olhos, o governo da China continua o mesmo. Um poço de contradições. Reclama-se parte das nações livres e civilizadas mas continua a tratar a sua gente como descartáveis fantoches, caprichosamente manipulados em nome de um falso “bem comum” sem qualquer respeito pela dignidade humana ou pela liberdade de escolha, tudo com o único objectivo de perpetuar o adiamento da resolução das suas crises internas.

Bom. Mas isso, hoje, não interessa nada, porque aqui no reino é dia de festa. 


“It’s official. It’s happening. It’s our turn again.”


What Women Want from Men

Saturday, 23 August, 2008

Os homens têm a mania de se perguntar o que as mulheres querem deles, como se elas fossem, assim, bichos histéricos e muito do needy, cheias de esquisitisses e extravagâncias tresloucadas, complicadas de agradar e incrompreensíveis na sua tendência de reduzirem tudo ao emocional e hormónico. Eu tenho pena deles, homens que não sabem o que as mulheres querem, pois colocando-me na sua posição também eu entraria em esquizofrenia total se tivesse de me descodificar 24/7. Eu própria não sei o que quero dum homem e os meus critérios tendem a mudar à medida que vou subindo na age box. Lembro-me que, por exemplo, para muita risota dos graúdos, aos 13 anos, queria um “moreno-louro”; aos 18 anos, queria um que me fizesse descobrir outros mundos e voada para o Canadá acabei mesmo por perder-me nos braços luxuriosos de um vietnamita; aos 23 anos, queria um que me desse paz e sossego, em outras palavras, não queria homem nenhum porque tinha encontrado nos livros os melhores amantes de sempre; e, agora, aos 28 anos, quero uma lenda arturiana. Sim, uma lenda arturiana. Ora vejam. No outro dia, li no Sunday Times que para se livrar à morte, o jovem Artur teve um ano para descobrir o que as mulheres querem. Na sua busca incessante encontrou uma sábia donzela que lhe disse - What women want is exactly the same as men: sovereignty over their lives. E eu não poderia estar mais de acordo. Acho que neste momento, posso dizer com (uma certa) certeza, que é isso o que primeiramente quero dum homem. Um homem que me ame pelo que eu sou e me deixe ser rainha da minha gloriosa existência. Mistério resolvido. Ta da!


Évora nas Bocas do Reino*

Friday, 22 August, 2008

A luta de titãs entre Nelson Évora, natural de Cabo Verde, mas português de cidadania, e Phillips Idowu da Team Gi Bi e residente em Londres não se previa fácil e os resultados foram simplesmente surpreendentes. Idowu achou-se vitorioso, mas no quarto salto, Nelson subiu às nuvens e aterrou cinco centímetros mais longe do que o inglês, ganhando um medalheiro de ouro. Olé, Portugal!

 

Idowu Takes Silver behind Evora

BBC Sport (21 August 2008) - Britain’s world number one Phillips Idowu had to settle for a silver medal in the Olympic triple jump after being out-jumped by Portugal’s Nelson Evora. Evora took Portugal’s first gold of the Beijing Games with a mark of 17.67m, ahead of Idowu who recorded 17.62m. Leevan Sands of the Bahamas took bronze with 17.59m, while Britain’s Larry Achike was seventh with 17.17m. Idowu, previously unbeaten this season, took the lead after three rounds but Evora’s fourth jump proved decisive. (…) Evora, who was a surprise winner at the 2007 World Championships, becomes his country’s first gold-medal winner in an Olympic field event. He had arrived in China with a season’s best of only 17.24, which ranked him at 17th in the world this year, but he found his form when it mattered.

Gold for GB Duo; Silver for Idowu

Sky News (21 August 2008) - Idowu, who had dyed his hair a striking shade of red for the games, went into the competition with hopes of clinching the top prize, and led the field for three rounds. But in the fourth jump, Portugal’s Nelson Evora leapt 17.67 metres - 5cm ahead of Idowu and enough to claim gold.

Team GB Aiming to Deliver a Knockout Blow

The Times (22 August 2008) - There had been high hopes that Phillips Idowu would add to the haul by the time he landed on his backside in the triple jump, but he had to settle for a silver medal, beaten by five centimetres by Nelson Évora, of Portugal. “It hurts - I’m upset - I came here to achieve a lot more and I just fell short,” Idowu said. At 29, these Games may have represented his best chance of gold, but Idowu was adamant that he would be back for London 2012.

Beijing Olympics - As It Happened, Aug 21

Daily Telegraph (21 August 2008) - 1.54pm Idowu slips to second: The world champion Nelson Evora of Portugal has just leapt 17.56cm, pushing Phillips Idowu down to second place. Idowu doesn’t improve on his first-round leap with his second attempt. (…) 2.39pm Another triple-jump twist: And it’s not a good one. World champion Nelson Evora from Portugal has gone ahead again with a leap of 17.67cm. Idowu needs a lifetime best to get the gold. (…) 3.14pm It’s silver for Idowu: Phillips Idowu could not improve on his earlier jump and has to be content with a silver. Nelson Evora of Portugal takes the gold. Disappointment for Team GB, although he did jump a season’s best.

Olympic Wrap for Day 13

Financial Times (21 August 2008) - Britain’s Phillips Idowu lost out on Olympic gold by 5cm in the triple jump final. Idowu produced his best jump of the year to lead with 17.62m after the third round, only to see Nelson Evora of Portugal then leap 17.67m in round four.

Olympics: Campbell Blames Coach for Relay Disaster

The Guardian (22 August 2008) - (…) Meanwhile Idowu’s season’s best of 17.62m was not enough in the triple jump as Nelson Evora of Portugal won with 17.67m. “I can’t believe I’m standing here with an Olympic silver medal and I’m really pissed,” said Idowu. “It [the silver] is not what I wanted but I’ll take it.”

 

*Post dedicado à Pécola, por ser uma destemida natural born optimist.

Errata: Nelson Évora nasceu na Costa do Marfim e não em Cabo Verde como foi dito acima, embora tenha competido com a camisola deste último país durante vários anos. Obrigada pela correcção, Pedro!


Felicidade aos Noivos: Versão Raio Parta a Solteirisse da Maria Lua

Thursday, 21 August, 2008

Recentemente, fui convidada a ir ao casamento do Juan e da Miranda na Andaluzia. O casal juntou-se em Paris há cinco anos atrás e com os dois agora na casa dos trinta, foi decidido que já estava na altura de selarem os seus profundos sentimentos e aconchegarem-se um ao outro para o resto da vida. Juan ajoelhou-se no cume de uma qualquer montanha em Machu Picchu e, rodeado de uma civilização ancestral e com um gostinho de coca na boca, pediu a Miranda em casamento, prometendo fazer da sua compincha uma Madame a sério. A boda, a ter lugar no início de Setembro, vai importar a moquecada de Londres para os arredores de Sevilha, prometendo muita farra e féria.

Mas até hoje, embora eu tenha dito que iria, não estava certa da minha presença. Para já, não sou muito adepta de celebrações em massa - consta que o Juan convidou mais de 300 pessoas para testemunhar o evento. Uma bestialidade numérica, se me perguntarem, que me transcende completamente, principalmente porque nem ele nem ela são parentes da Letícia e do Felipe.

Depois, acho muito estranho que embora o Juan me tenha dito várias vezes que jamais se iria casar, tenha agora proposto compromisso eterno à sua argentina. O que aconteceu? Voltou a enamorar-se da Miranda, foi? Ou será que as benéfices das isenções fiscais dos casados se tornaram irresistíveis? Ou será, antes, que entre o vasto stock de mulheres solteiras a viver nesta cidade ninguém mais lhe passa cartão? Não sei, sinceramente, não sei.

Finalmente, em terceiro lugar, não me apetecia ir ao casamento porque, neste momento, não tenho vontade nenhuma de ter a felicidade acuplada dos outros esfregada na cara. Eu sei, eu sei, “Côrror, Maria Lua, que coisa mais invejosa de se dizer”. Mas a verdade é que começo a ter tolerância zero para os meus moquecos, que se passeiam de braço dado por esta cidade como se Londres lhes pertencesse por direito ao amor. Embora as estrelas devessem estar a bafejar-me um lindo romance com direito a happy ending - afinal de contas, aparentemente, não há nada de errado comigo, sou solteira, boa rapariga e estou no primor das minhas carnes - dá-me a sensação que todos os meus companheiros de pabe, menos eu, andam a usufruir de tal zeitgeist. Pela primeira vez desde que os conheço, eles parecem ter encontrado do dia para a noite uma mais-que-tudo que lhes enche as medidas, trazendo-lhes suspeita áqueles “protegidos” por uma sorte menor que os destina a dias de verdadeira solidão, id est, euzinha. Sair com esta gente, ultimamente, passou a ser sinónimo de levar com casais felizes, membros exclusivos de um clube perfeição ao qual não fui convidada a aderir por falta de homem macho que me ponha o braço por cima dos ombros e me apalpe o peito eriçado.

Ai. É que tenho mesmo saudades dos tempos em que a maioria deles era solteiro ou sem intenções de assumir compromisso sério e nós éramos, assim, jovens e livres, fazendo o que nos apetecesse quando nos apetecesse sem dar satisfações a ninguém. Tinha a atenção de todos e entre eles movia-me como uma verdadeira rainha - a mulher desejada que na sua solteirisse residia todo o seu mistério.

Mas os meus dias de glória acabaram. Uma tristeza. Num espaço de seis meses, o meu mundo passou subitamente a ser dominado por machos comprometidos, onde a espontaneidade do já e agora foi substituída por um I’ll let you know, first I have to check with my girlfriend, enquanto eu passei de sex symbol a pitiful spinster. Mas também não é por escolha própria que ando sozinha! Não sou freira nem pudica, continuo simplesmente à espera do homem perfeito. E por ele não estou disposta a assentar acampamento com nenhum outro, nem a perder a minha liberdade e a minha joie de vivre em troca da rápida satisfação de necessidades ao sul do umbigo. Mas os moquecos já não entendem isso. Dividir a vida a dois e falar na primeira pessoa do plural passaram a ser a nova moda dos meus homens trintões. E eu, para minha frustração, passei a ser a solteira encalhada.

Pois eu digo, que se lixe. Vou rebelar-me contra a mudança dos tempos e a maturidade emocional que de repente assaltou a minha gente. Vou ao casamento, sim senhor, e vou levar a Mommy comigo. Ao contrário dos meus moquecos, posso não ter um date, mas tenho uma progenitora linda de morrer que me atesta as veias de orgulho e, tanto quanto me diz respeito, é mais charmosa do que qualquer vedeta cinco estrelas dos filmes de Almodóvar. Para além disso, e sobretudo, também acabei de comprar o vestido mais fabulous que vi nos saldos da Debenhams, que condizidos com uns belos de uns stilettos encarnados e uma lingerie e uma clutch da mesma cor, não me deixarão ficar de todo mal se por uma infeliz eventualidade puserem a mim e à Mommy a comer na mesa das crianças. Caramba, que se é para desfilar a minha singlehood à frente das parelhas dos meus moquecos, então que seja com muito estilo.

Roam-se, meus lindos.

Olimpíadas

Wednesday, 20 August, 2008

Da mesma forma que Portugal anda a perguntar como é possível só se ter ganho até agora uma única medalha de prata nos jogos olímpicos de Pequim, o reino róial tem perguntado o mesmo mas ao inverso, ou seja, como é possível que se tenham recolhido mais medalhas nesta olímpiada do que em qualquer outra desde 1908 (as we speak, 16 de ouro, 10 de prata e 10 de bronze).

As respostas, no meu entender, são deveras simples. Enquanto os apoiantes da Team GB fizeram uma restrospectiva da sua história desportiva, descobrindo o mistério da sua actual prestação maravilha nas políticas financeiras do já esquecido Primeiro Ministro tory, Sir John Major, que em 1994 decidiu investir uma boa percentagem da lotaria nacional nos clubes desportivos da nação, em Portugal, por outro lado, são os próprios políticos que atacam os desportistas desavergonhadamente, culpando os mesmos pela falta de vitórias nacionais, tratando-os de forma condescendente, “A culpa é toda vossa!”, dizem os coitados dos desportistas, ”Não, é vossa”, responde o Secretário de Estado, ”Não, é vossa que não nos dão os apoios necessários!”, “Não, já vos disse, a culpa é vossa e, assim como assim, como podem vocês saber de quem a culpa é, se com tanto músculo agarrado ao osso mal vos sobra espaço para um cerébro, seus brutos irracionais?”, pergunta o Secretário de Estado socialista com uma petulância que me faz lembrar a obtusidade de outros tempos salazares:

Foi já pela madrugada em Pequim (17h00 em Lisboa) que o Governo, através do secretário de Estado da Juventude e do Desporto, Laurentino Dias, reagiu aos maus resultados dos atletas portugueses. Criticou algumas das suas declarações e lembrou-lhes que “aos Jogos Olímpicos não se vem apenas participar, mas para competir a sério, obter resultados, porque esta é a competição mais séria e exigente do mundo”. Laurentino Dias disse ainda que os atletas estão em Pequim “para competir desportivamente, não para prestar declarações. Eles são melhores a fazer desporto do que a prestar declarações”.

In “Laurentino Dias Lembra aos Atletas que Devem Competir a Sério”, O Público, 20 de Agosto de 2008. 

Bom. Mas, independentemente de quem seja a culpa, questiona Victor Ferreira, jornalista do Público, como é possível que Portugal tenha investido mais tempo e dinheiro nas olimpíadas de Pequim do que de Atenas, aumentando o seu investimento nos desportistas nacionais em dois milhões de euros, e ainda assim os resultados estejam a ser flagrantemente mais fracos do que há quatro anos atrás?

Meus queridos, meus queridos, calma, muita calma.

Não há razão para entrar em pânico, nem para ver nas fraquezas físicas dos nossos Sebastiões Coq Sportif motivos de decadência nacional. Nós somos o que somos no grande plano da ordem internacional - pequenos, fracos, irrelevantes, descartáveis e insignificantes - e não são umas derrotas no estádio que nos vão tornar ainda mais pequenos, fracos, irrelevantes, descartáveis e insignificates aos olhos do mundo.

Mas, dito isso, ao contrário de muita nação sem poderio militar e económico, nós temos uma grandiosidade interior que nos coloca à parte das outras, uma história de impérios (mesmo se de papel) que nos enche o ego nacionalista e os livros das nossas crianças com estórias de conquista, e uma longevidade estado-territorial inigualável. Por isso, vamos ter muita calma, que não é Pequim que nos tirará a tusa portuguesa nem nos destinará à extinção. E, a propósito disso, vejam o exemplo do reino róial. Quando este foi eliminado do Euro 2008, ainda antes do campeonato começar, ninguém ameaçou atirar-se do Big Ben a baixo. Simplesmente, fingiu-se que o campeonato nunca aconteceu e a vida continuou para a frente.

Para além disso, como eu disse acima, Sir John Major é tido como o herói destas olimpíadas, mas em Atlanta, dois anos depois de ter decidido investir parte dos ganhos da lotaria nacional nos clubes desportivos, a Team GB só trouxe para casa uma (unzinha) medalha de ouro.

Investimentos financeiros no desporto, portanto, parecem só ter resultados a longo prazo. Os dois milhões adicionais que foram investidos no desporto em Portugal nos últimos quatro anos, se calhar, não são suficientes e quando o forem, se calhar, só se traduzirão em medalhas uma década e meia depois.

Por isso, calma, minha gente, muita calma que ainda temos umas coisinhas a aprender com os britânicos e toda uma eternidade pela frente.


Armchair Traveller

Tuesday, 19 August, 2008

Desde ontem e por mais três noites, a BBC1 irá passar o documentário The Man Who Cycled the World, as aventuras de Mark Beaumont, um escocês que se fez ao mundo em bicicleta com o objectivo de quebrar o Guiness World Record, percorrendo quatro continentes e 18 mil milhas em menos de sete meses.

Nos dias que correm, devo de dizer, ando muito carente de aventura e adrenalina e, por isso, este documentário caiu nas tv listings como uma ginjinha. Desde que vi o Long Way Round na BBC2, que a minha vontade de ir à descoberta de outros mundos e de ver in loco as pessoas e os lugares de que leio em primeira mão nos jornais diários cresceu exponencialmente. Começo a fartar-me da minha visão unidimensional, limitada à tela da televisão e à folha do periódico, e dou por mim a sentir esta comichão no fundo do estômago que me leva a sonhar com as maravilhas de continentes encantados - empestados de sida, pobreza, fome e governos autoritários, verdade seja dita - mas cheios de excentricidades e sensações exóticas a absorver.

É a primeira vez que sinto esta wanderlust. Para ser franca, sempre fui muito elitista na escolha de destinos de férias e, tirando o Brasil, o Peru e o Marrocos, eu nunca gostei de me fazer ao subdesenvolvido e ao pestilento. Moqueca das Europas e da América do Norte, raramente pisei o solo de um país que tivesse um Produto Nacional Bruto mais baixo do que o das Ibérias. Desde pequena que oiço a Mommy dizer que se é para sairmos do aconchego da nossa casa, então o melhor é irmos para um sítio que tenha, pelo menos, o mesmo conforto. E eu concordo com ela, pois nesta vida podem tirar-me tudo, mas não me tirem a Mommy e o meu conforto que sem os dois eu não fui geneticamente fabricada para sobreviver.

Mas, agora, o mundo apresenta-se-me com outras cores, com outras atracções, com outros afectos humanos. Richard Dawkins, no seu documentário da Channel 4, The Genius of Charles Darwin, disse uma coisa fantástica, não exactamente por estas palavras, mas com o mesmo sentido - por mais que eu admire as descobertas de Darwin uma pergunta ele ignorou fazer quando pensou a Teoria da Evolução: se as espécies estão geneticamente predispostas a lutarem pela sua sobrevivência e, dependendo do seu sucesso, ora evoluiem ou extinguem-se, então como é possível explicar coisas tão “contraprodutivas” como a generosidade e a ajuda ao próximo?

Nas suas aventuras de Londres a Nova Iorque via Sibéria e de John O’Groats (Escócia) a Cape Town (África do Sul), Ewan McGregor e Charlie Boorman comprovaram isso mesmo. Por onde quer que passassem, montados nas suas lindérrimas BMWs, quer fosse pelo Cazaquistão, Mongólia, Botswana, Líbia ou Etiópia, as pessoas paravam na estrada para os saudarem, ajudavam-os a atravessarem rios e estradas de lama, soldavam-lhes os chassis e ofereciam-lhes comida e abrigo. Quanto menos elas tinham, mais elas lhes davam e, isso, não é uma fraqueza biológica, é uma qualidade divinal que perpetua a minha fé na evolução do Homem, mais do que em deus.

E assim ando eu a perder a oportunidade de testemunhar essa generosidade humana fora da minha zona de conforto, e a pensar como seria scrumptious fazer uma viagem de meses pelas Ásias, Américas e Áfricas, posta a cavalo num potente motor, qual amazona do cabedal, acompanhada por alguém que me enchesse os olhos de sorrisos e o coração de ganas pelo desconhecido, como o McGregor e o Boorman.

Mas como não tenho mota, nem companhia, nem tempo, nem recursos, nem loucura suficiente para largar o quotidiano, viajo antes pela mente com a ajuda da minha fecunda imaginação. Na estante, tenho tudo o que preciso - Long Way Round, Long Way Down, Race to Dakar, Jupiter’s Travels e The Motorcycle Diaries - o meu fix literário que oxalá me dure até ao Natal. E, depois, logo veremos.


▒ Are You Having a Laugh?

Saturday, 16 August, 2008

Em 1972, de visita ao zoo de Edimburgo, um jovem tenente da Guarda Real norueguesa decidiu adoptar um dos pinguins que lá estavam, atribuindo-lhe a posição de Primeiro-Cabo. Deu-lhe o nome de Nils Olav em homenagem ao Rei Olav e ontem, às portas do zoo de Edimburgo, Nils foi feito Cavalheiro pelo Rei da Noruega por serviços prestados à Guarda Real norueguesa. Depois de uma vida de dedicação militar, em que o supremo sacrifício pela pátria se traduziu na função de mascote, levando Nils à cobiçada posição de Coronel – o pinguim vestiu-se à altura da efeméride, com um charmoso black suit, e recebeu a honra com toda a pompa e cerimónia.

“Are you having Olav?”
“Pardon? That’ll be Sir Olav to you!”

Perdoem-me o trocadilho fácil, mas não pude deixar de o transcreber da Sky News.
O humor britânico pode ser naff, mas é genial.


G-Spot

Friday, 15 August, 2008

Mas chega de falar de trabalho, de reflectir sobre metamorfoses profissionais, de regorgitar auto-congratulações e de massajar o ego com masturbações verbosas e vamos falar de outras coisas igualmente interessantes e importantes na vida, como, por exemplo, os documentários G-Spot que o Channel 4 anda a transmitir este mês em horário nobre.

Estes documentários dedicam-se a explorar temas próprios das mulheres e são feitos para gente que se interessa pelo universo feminino, por mais descabido que o mesmo, por vezes, se apresente.

O último documentário, falou sobre o comércio das peles – no qual a jornalista, Merrilees Parker, teve literalmente que testemunhar as etapas do Kill It, Skin It, Wear It numa fur farm dinamarquesa e nos campos do Idaho – e o próximo falará, ladies and gentlemen, sobre a vagina perfeita.

Pois é. Segundo a jornalista, Lisa Rogers, o último grito em Inglaterra entre a irmandade é fazer uma operação cosmética à Miss Twat, dando-lhe o último designer look. Parece que não são só os homens que sofrem do complexo da foreskin, as mulheres também partilham das mesmas preocupações com a sua lábia, e nos últimos cinco anos as labiplastys aumentaram em 300 por cento.

Sinceramente, não entendo o propósito da estética da pachacha. Anda uma moqueca a sofrer com o flagelo das genital mutilations na África islâmica e estas gajas a pagarem para cortarem as suas private bits and pieces. Vá-se lá entender a cabeça das mulheres mal-quecadas. Good grief.

De qualquer forma, se estiverem no Reino Róial, o documentário é transmitido no Domingo pela Channel 4, às 22 horas. A não perder.


Adeuses

Ontem, emocionei-me à frente da minha chefe. Foi o meu último dia a trabalhar como assistente editorial numa revista da especialiade publicada pela Blackwell e os adeuses foram mais comoventes do que eu esperava. Durante dez meses, assisti em part-time a Managing Editor daquela revista, colocando em prática a experiência que tinha ganho numa outra revista da especialidade, publicada por estudantes de doutoramento da minha especialidade, para a qual trabalhei durante três anos, chegando à superlativa posição de Deputy Editor. Nesta revista da Blackwell, embora a minha posição na hierarquia fosse de subalterna e não mais de chefia, aprendi imenso sobre as complexidades do processo peer-review e desenvolvi um know-how admirável sobre as políticas administrativas da segunda melhor revista científica do mundo na sua área de expertise. No processo, desenvolvi uma forte e muito maternal amizade com a minha chefe, de seu nome Salomé, de seu país Brasil. Um doce de pessoa, radiosa e encantadora, com a sabedoria e paciência humana, própria de quem passou dos 60 há já algum tempo. Uma lutadora por natureza, mulher apaixonada e bem sucedida, de uma determinação e diligência invejáveis. A despedida custou-me deveras e ainda cheguei a derramar uma lagriminha mais marota quando a Salomé me abraçou fortemente e me disse que sem a minha ajuda, a revista não teria chegado tão longe em tão pouco tempo.

No final do dia, regressei ao meu escritório na Faculdade do Rei. Sobre a minha secretária, espalhei os inúmeros documentos que constituiam o contrato que me ia amarrar à Faculdade no próximo ano lectivo. Lio-os atentamente, preenchi-os, assinei-os e enviei-os para os Recursos Humanos.

É oficialmente o fim de um ano lectivo e o início de outro, o fim de uma etapa na minha carrreira e o início de outra. E no espaço de um ano, as mudanças saltam à vista. De Maria Lua, a assistente, a subalterna, a timida do seu conhecimento, passei a Maria Lua, a confiante, a poderosa, a mercenária da academia e, em alguns meses, fingers crossed, a published author. Ai.


Gusto

Thursday, 14 August, 2008

Desde que a Mommy voltou para as ibérias com os putos, contentes da vida por terem passado meia dúzia de dias a passear por Hyde Park, Hampstead Heath, Brighton, Legoland e pelo O2, onde foram devidamente cultórados nas virtudes da civilização egípcia do boy king Tutankhamun, porque parente de Maria Lua tem porque tem de ficar a saber uma coisinha ou duas sobre o mundo e a sua História, que tenho andado atulhada em trabalho até aos queixos, daí a avareza de textos escritos neste diário desde o início do mês, embora já tenha prometido a mim própria que doravante passarei a levantar-me mais cedo para despejar qualquer coisinha no papel, porque se há coisa que me deixa bem humorada logo pela manhã é escrever umas tonterias light, enquanto cultivo o verbatim self-absorbed ad vomitum.

Bom. Na semana passada, então, lá migrei para a Faculdade do Rei. Deixei o conforto da sala dos doutorandos da Londres Sempre Eterna, onde entre grande animação colectiva, escrevia a tese e preparava as aulas na companhia de outros oito moquecos. Agora tenho um escritório só meu, porque, alas, na Faculdade do Rei deixei de ser assistente de catedrático e passei a ser professora sem sufixo de assistente, e o trabalho caiu-me no colo como uma avalanche. Passo catorze horas por dia a rever um livro que estou a co-editar com o belga Frédéric para a Palgrave, a fazer projectos VLE para os professores em antecipação do novo ano académico, e escrever a tese, a preparar as palestras das novas cadeiras que fui recrutada para leccionar em 2008-2009 e a elaborar uma crítica literária de um livro de um colega.

Como podem imaginar, ando sem tempo para nada. Reduzi-me a pôr a leitura da Newsweek em dia na paragem do autocarro, a escrever pensamentos e daily tasks no bloco de notas do Blackberry, a manter a indulgência das novidades do Blockbuster ao mínimo, a esquivar conversas longas com outros seres racionais e a ver o noticiário da Channel 4 no Channel 4+1, onde o repetem uma hora mais tarde, dando tempo para chegar a casa no final do dia. Em uma semana só troquei mais de duas palavras com a Mommy, o administrador do meu novo departamento e a minha amiga Mathilde. Já não me lembro quando foi a última vez que pus os pés num pabe, que fui a uma house party ou que li o livro de cabeceira por mais de meia hora.

Mas, devo de dizer, não trocaria esta azáfama diária por nada neste mundo. Ando empanturrada de deadlines e produção literária em série até às costuras, mas ando muito satisfeita.

Neste mundo académico, não há nada que me dê mais pujança para continuar do que a aprovação dos meus meninos e dos meus superiores. Ainda ontem, recebi um email de um dos meus ex-alunos a dizer que tinha terminado a licenciatura com um Mérito e a agradecer-me por ser “such a cool teacher”. Um catedrático americano para quem fiz um projecto VLE, congratulou-me com um rasgado elogio, “it’s fucking fantastic, thank you, you’re amazing”. Sim, os catedráticos, pelos vistos, também dizem asneiradas, deixando-me tão surpresa quanto estimulada. E outro catedrático, guru supremo da minha área de especialidade, que colaborou com um brilhante capítulo para o livro, louvou-me e ao Frédéric pela “excelente” iniciativa literária.

Repito, ando muito, mas muito satisfeita. E que venham lá mais semanas como esta, que eu posso andar sem tempo para fazer um trimming de jeito às sobrancelhas, mas, como diz a Mommy, estes são os melhores dias da minha solteirísse e o melhor é aproveitá-los, porque depois do grande C, o trabalho não mais me ocupará a mente com o mesmo gusto.


Adeus Verão

Tuesday, 12 August, 2008

O Verão por estes lados parece já ter terminado. Desde há uma semana a esta parte, o sol esconde-se envergonhado por cima de um sedoso manto de nuvens cinzentas que carrega os céus de Londres como puro chumbo. As temperaturas não voltaram a passar dos 21 graus e o vento enregelado sopra de mansinho. Os turistas, mal habituados, sofrem com o frio e os salpicos que caiem da atmosfera, cobertos de impermeáveis e rascas brollies da Union Jack, compradas como último recurso a dez libras cada uma nas lojas de souvenirs da esquina. As pessoas, em geral, queixam-se do tempo e da efemeridade dos dias quentes e solarengos. Os seus semblantes já não são tão rápidos a dispararem um sorriso ou uma palavra mais atrevida. O Outono chegou e a sensualidade do calor voltou a hibernar.

Eu, por outro lado, não gosto muito do Verão. Na verdade, gosto mais de qualquer outra estação do ano do que do Verão. Nunca fui adepta da praia, nem do bronzeado chamuscado. Aprecio muito mais uma lareirinha acesa do que uma toalha estendida na areia. Os meus hábitos são mais amigos do ar fresco e pluvioso do que das temperaturas saarianas que me derretem o miolo. Por exemplo, não há nada que me dê mais prazer do que ler o Sunday Times enquanto oiço uma boa música jazz nos speakers e a chuva cai lá fora. Sou parcial às delícias do conforto que me traz ao coração deitar-me debaixo das mantas, estendida no sofá, a ver a última novidade do Blockbuster, enquanto os pés se esfregam um no outro. Gosto de chegar a casa e acender as minhas velas aromáticas com cheirinho a baunilha, manga e maçã picante que trago espalhadas pelas soalhadas. Gosto de botas, collants grossas, vestidos de lã, luvas até ao cotovelo e casacos pesados. Gosto de arco-íris e radiadores acesos. E gosto de chá quente e do cheiro a terra molhada.

Assim sou eu, uma moqueca de hábitos invernosos que ama o brilho, a energia e a harmonia dos dias “mais tristes”. Por isso, ao contrário da maioria dos londrinos, até estou feliz por o Verão ter terminado. Com ele, parece também ter terminado mais um capítulo da minha vida. Ando muito auto-amada, ocupada e realizada. Mas isso fica para elaborar noutro dia de chuva. Amanhã, certamente.


Mini-Break

Friday, 1 August, 2008

A Mommy chega hoje a Londres com duas crianças aprimadas para uma meia dúzia de dias passados na cidade e redondezas. O plano das promenades ficou concluído esta tarde depois de uma meticulosa pesquisa de horários, mapas e lugares diferentes para visitar. Com mais de doze visitas à Angleterra debaixo do cinto, a Mommy já conhece Londres tão bem quanto eu. Uma desgraça. As minhas limitadas escolhas obrigam-me a ser horrores de criativa. Bom. Só espero que ela goste do itinerário surpresa que tracei especialmente para ela e para a pequenada. O meu regresso à escrita fica prometido para finais da próxima semana depois da família ter evacuado e eu, por suposto, ter sido coroada the bestestest cousin in the whole world. Inté.