Quem quer ser Henry Junior?

Não querendo desprezar as honrosas e revolucionárias descobertas que os meninos das ciências naturais têm feito ao longo da história da humanidade, eu sou da opinião que os estudantes das ciências sociais é que se acham destinados aos achados dos cinco sentidos. Na persona do seu role model, Dr. Henry Walton Jones Junior, convencem-se que são os Indiana Jones das ciências racionais, os verdadeiros aventureiros de chicote na mão, cheios de curiosidades mil pelas mudanças que certas pessoas, líderes, grupos, partidos, nações e Estados têm exercido neste mundo. Sofrem eles de claustrofobia aos laboratórios fechados, cerrados à vida real, onde as revoltas populares, os media, a globalização, as guerras, o nacionalismo, a imigração e a diplomacia são conceitos abstractos sem razão de ser e sem nenhuma aplicação ao trabalho que se está a desenvolver. O objectivo dos cientistas sociais é antes aceitar a humanidade e a sua história tal como ela se apresenta, tentando entendê-la e explicá-la dentro do que é possível com os dados e observações que recolhem nas suas expedições aos quatro cantos do mundo. Fazem-se a terrenos desconhecidos e, por vezes, inseguros, aprendem línguas estranhas e vão ao encontro daquilo e daqueles que podem iluminar o puzzle intelectual que dá forma à sua investigação. Preparam viagens de campo à minúcia, marcando entrevistas e visitas a depósitos de documentos, e arranjam alojamento na cercania daqueles que melhor os podem elucidar sobre o tema que estão a escrever. Se tiverem sorte, ainda regressam a Londres com as repostas que procuravam e um research fund que cumpra a promessa de reembolsar as despesas da viagem.

Tudo isto é muito bonito e a mim deveria excitar deveras, uma vez que também eu sou estudante das ciências sociais mas, sinceramente, não me diz quase nada. Ao contrário dos meus colegas, o meu case study não me leva mais longe do que a Ibéria, onde passo dois pares de semanas por ano a fazer investigação, enquanto visito a família e me delicio com o que de melhor a cuisine nacional tem para me encher as tripas. Isto porque não é culpa minha que, neste reino róial, Portugal continue a ser tema exótico, tão exótico quanto o Uganda, o Panamá ou a Mongólia, mas ao contrário destes países, fique situado aqui no Oeste da Europa, na mesma time zone que as Ilhas Britânicas. Para além disso, do que me vale escrever sobre coisas menos familiares e mais longínquas do que as gentes da Ibéria, quando se contam pelos dedos os livros escritos em inglês sobre a nossa história política e, quando terminar o doutoramento, a minha tese terá tanta possibilidade de ser publicada quanto a dos colegas que escrevem sobre a Al-Jazeera e as minas anti-pessoal no Sudão?

De igual forma, esta história da observação in loco causa-me muita tristeza, pois deixou-me numa secura total de moquecos, que desertaram Londres para ir fazer pesquisa de campo à China, Austrália, Israel e Tajiquistão. Em Agosto, os poucos que restam rumarão à Argentina, ao Uruguai, à Itália e ao México. Uma chatice tremenda, porque até que a moquecada regresse a Londres, lá pelo final de Setembro, não me resta muito para fazer à noite senão ver as aventuras de Ewan McGregor em Long Way Round, outro gajo com a mania que é Indiana Jones sem sequer ser cientista social, cujas repetições são convenientemente exibidas no BBC iPlayer. Isto, claro está, quando não me ponho sob terror, porque em Istambul rebentaram duas bombas num bairro residencial, matando 15 pessoas, e a Mathilde anda por lá com botas de espora e chapéu de cowboy a fazer entrevistas para a tese. Depois de uma rápida troca de emails, ela lá confirmou que está viva. O pior foi a bombástica diarreia nativa que a atacou subitamente.

I rest my case.



Ora, diga lá de sua justiça

*Nota: Todos os comentários são previamente moderados. A partir de 14 de Setembro de 2008, os comentários associados a endereços de email inválidos serão automaticamente considerados spam ou parasitas e, por isso, não serão publicados.