
Hoje, é o dia de independência da Colômbia, efeméride que não me diz nada ao coração nem ao intelecto e certamente me passaria completamente ao lado se não fosse a Mercedes convidar-me para celebrarmos o dia em que o seu país emancipou-se da espanholada com um almoço colombiano de lamber os dedos.
Ao almoço juntou-se-nos também o casal canadiano superstar, o Edward e a Martha, ele colega de doutoramento, ela futura estudante de medicina em Halifax, e o casal maravilha luso-francês, preferido dos preferidos, o Nico e a Mathilde, grandes amigos do peito, da fofoca, dos copos e do bem-dizer da pátria ibérica, ela colega de doutoramento, ele consultor numa qualquer empresa londrina.
A matinée, como se poderia esperar, foi muito cótural e entretida com interessantes debates sobre a história e a política contemporânea colombiana, mas o ponto alto, devo de dizer, não foram os sons andinos que ecoavam dos speakers, nem a deliciosa home meal cozinhada pela superdotada Mercedes com a ajuda da sua simpática flatmate, a argentina Evita. A bom do registo para a posteridade, convém deixar aqui escrito que um verdadeiro banquete de milho cozido, sancocho de pescado, arroz de coco, arroz de feijão, plátano, ceviche e doce de leite com queijo fresco foi servido, como diz a Mommy, com muito amor. Não. Como estava a dizer, o ponto alto da festa não foi sequer a comida, foi antes ver que os casais moquecos decretaram há pouco tempo o tube, o double decker e o black cab obsoletos e decidiram juntar-se à febre do street cycling, que, por curiosidade, conta já com um milhão de donos e proprietários de bicicletas só na cidade de Londres, deslocando-se a pedais para todo o lado: para o trabalho, a faculdade, a Tesco, o ginásio, o parque, o pabe e até mesmo para a casa da Mercedes.
Os quatro convertidos contaram-me maravilhas das duas rodas, da rapidez com que se cruza a Zona 1, do dinheiro que se poupa em transportes públicos e da segurança que se sente no meio do trânsito, pois os automobilistas britânicos até são minimamente civis e respeitadores do código da estrada. Para além disso, dizem eles que ciclar faz bem ao coração e ajuda a tonificar as pernocas e os abdominais, so what are you waiting for, Maria Lua?
Perante tanta vantagem, devo de dizer que fiquei tentada a deixar os saltos em casa e fazer-me à camisola amarela até porque, depois de dar uma voltinha na bomba da Mathilde, confirmei que ainda tenho o equilíbrio necessário à ciclagem. Assim, parece que nada me está a impedir de, qual Simón Bolívar, também eu declarar o meu dia de independência do oyster card, nem que seja só ao fim-de-semana em que, for Pete’s sake, os autocarros parecem virar atracções nacionais, enchendo-se de turistas de mapa na mão e de criançado de palmo e meio que insiste em gritar a pulmões cheios. Da mesma maneira, ao fim-de-semana esta cidade parece que pára, literalmente, e hoje só para chegar a casa da Mercedes, ou seja, só para ir de Westminster a Newington Green, demorei uma hora e meia de transportes, enquanto os casais atletas, esses, não demoraram mais de 45 minutos para cobrir o dobro do percurso.
Bikes -1; Double deckers - 0